
O número de domicílios unipessoais na Paraíba mais que dobrou em 12 anos, atingindo 225.195 residências em 2022, um aumento de 109,7% em comparação a 2010, conforme dados do IBGE. Essas moradias representam atualmente 16,5% das casas no estado. No cenário nacional, a evolução também é significativa: as casas com apenas um morador passaram de 12% em 2012 para mais de 18% em 2024. Essa transformação demográfica traz impactos profundos, especialmente em João Pessoa, onde o crescimento de pessoas solteiras, divorciadas, profissionais que trabalham remotamente e investidores individuais influencia diretamente a dinâmica econômica e urbana da cidade.
Em João Pessoa, esse novo perfil de morador modifica o mercado imobiliário, influenciando o projeto dos empreendimentos, a movimentação nos bairros da orla e a organização dos setores de restaurantes e serviços. O economista Amadeu Fonseca destaca que o aumento da procura por imóveis compactos, como studios e apartamentos de um quarto, já é um fenômeno perceptível, pressionando preços em determinadas regiões. Essa tendência é confirmada por profissionais do setor imobiliário na região da praia, que afirmam que atualmente solteiros buscam apartamentos pequenos, porém com conforto e facilidades, como proximidade da orla, academia e piscina no condomínio.
O planejamento das incorporadoras acompanha essa mudança, deixando de focar apenas na área das unidades e direcionando os projetos para o estilo de vida desses moradores. Segundo Riccelly Lacerda, CEO da Bloco Construções, as áreas compartilhadas — coworking, lavanderias e espaços gourmet — tornam-se extensões da casa. Esse modelo é denominado de adensamento inteligente, que privilegia construções verticais, concentradas e orientadas à conveniência do morador.
Bairros da orla como Bessa e Manaíra evidenciam essa transformação, com o aumento expressivo de serviços como supermercados, farmácias, bares e cafeterias. A presença forte de investidores externos, que compram flats para alugar via plataformas digitais, também contribui para o crescimento desse público individual. O turismo e o trabalho remoto são fatores que ampliam o interesse por residências compactas próximas à praia, com fácil acesso a serviços e pontos turísticos, criando um verdadeiro laboratório urbano na orla de João Pessoa.
Além do setor imobiliário, o padrão de consumo desses moradores solos impacta a economia local. O economista Amadeu Fonseca explica que esse público gasta mais em alimentação fora de casa, delivery, lavanderia e serviços de limpeza, além de buscar experiências em bares, academias e coworkings. Na gastronomia, embora os restaurantes ainda sejam locais de encontro, cresce o consumo individual, com reservas para uma pessoa, menus específicos para porções individuais e delivery sofisticado.
Esse fenômeno contribui para um modelo urbano mais denso e funcional, favorecendo o adensamento em bairros que já possuem infraestrutura. O conceito da “cidade de 15 minutos”, na qual o morador resolve suas demandas a pé, ganha força, exigindo também planejamento público para mobilidade, serviços e infraestrutura. Na Paraíba, o crescimento dos domicílios unipessoais supera as médias nacional e regional, apontando para uma mudança estrutural na economia da capital.
Cada indivíduo que vive sozinho representa uma nova unidade econômica, consumindo e decidindo autonomamente. Para empresários, essa mudança representa oportunidade; para gestores públicos, um desafio; e para João Pessoa, um redesenho de seu perfil urbano e econômico. O futuro da cidade, portanto, nasce do poder de decisão de quem vive só e demanda soluções que atendam às suas necessidades específicas.