
A recente votação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, ocorrida na quarta-feira (8), recolocou o Brasil no centro das discussões sobre integração econômica global e reposicionamento estratégico nas cadeias internacionais de valor. Para a região Nordeste, em especial, a possível implementação desse tratado representa uma oportunidade histórica de acelerar o desenvolvimento regional, ampliar a inserção internacional e reduzir desigualdades estruturais por meio do comércio exterior.
O acordo prevê a redução gradual ou eliminação de tarifas de importação para uma extensa gama de produtos industriais e agropecuários, além de estabelecer regras mais claras e previsíveis para comércio de bens, serviços, investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual. Na prática, isso tende a diminuir custos, reduzir barreiras burocráticas e ampliar a segurança jurídica, fatores essenciais para estimular exportações e atrair investimentos produtivos. Para as empresas nordestinas, esse novo ambiente regulatório pode facilitar o acesso a um dos maiores e mais sofisticados mercados consumidores do mundo, composto por 27 países e mais de 440 milhões de habitantes, com alto poder aquisitivo e demanda crescente por produtos sustentáveis e diferenciados.
O Nordeste brasileiro possui uma pauta exportadora diversificada e fortemente alinhada às demandas do mercado europeu. Destacam-se setores como o de frutas frescas e processadas — manga, melão, uva, limão, mamão e castanha de caju —, nos quais a região já ocupa posição de liderança nacional. Também ganham relevância os segmentos de pescados e aquicultura, incluindo camarão, peixes e lagosta, além das cadeias de couros e calçados, têxteis e confecções, produtos agroindustriais, alimentos processados, bebidas, artesanato, moda autoral e bens criativos com alto valor agregado e identidade cultural. A redução de tarifas, aliada à maior previsibilidade regulatória, tende a elevar a competitividade desses produtos frente a fornecedores de outras regiões do mundo, como África, Ásia e América Central.
Outro fator estratégico é a localização geográfica do Nordeste, significativamente mais próxima da Europa em comparação a outras regiões do Brasil, o que reduz tempo de transporte e custos logísticos. Portos estruturantes como Pecém (CE), Suape (PE), Salvador (BA) e Natal (RN), que já operam rotas internacionais e contam com projetos de expansão, poderão se beneficiar diretamente do aumento do fluxo comercial com o bloco europeu. Além disso, zonas industriais, polos logísticos, distritos produtivos e Áreas de Processamento de Exportação (ZPEs) instaladas na região tendem a atrair novos investimentos, especialmente voltados à transformação industrial, agregação de valor e integração com cadeias globais.
O acordo também pode impulsionar a internacionalização de micro, pequenas e médias empresas nordestinas, tradicionalmente menos inseridas no comércio exterior. Com apoio institucional adequado, essas empresas poderão acessar novos mercados, participar de feiras internacionais, adaptar produtos a padrões globais e incorporar inovação tecnológica e design como diferenciais competitivos. Nesse contexto, a economia criativa e os negócios de impacto socioambiental surgem como segmentos promissores, alinhados às preferências do consumidor europeu.
Entretanto, o tratado impõe desafios relevantes. A União Europeia mantém padrões rigorosos nas áreas ambiental, sanitária, fitossanitária, trabalhista e de rastreabilidade, exigindo adequação das cadeias produtivas brasileiras. Para as empresas nordestinas, isso significa a necessidade de investir em certificações internacionais, boas práticas produtivas, governança, sustentabilidade ambiental e inovação tecnológica. Embora essas exigências representem custos iniciais, elas também funcionam como um selo de qualidade, elevando o padrão dos produtos regionais, fortalecendo a imagem do Nordeste no exterior e facilitando o acesso a outros mercados globais igualmente exigentes.
Nesse cenário, o papel das políticas públicas será decisivo. Programas de capacitação, financiamento, inteligência comercial e promoção das exportações — como os desenvolvidos pela ApexBrasil, pelo Banco do Nordeste, pelo Sebrae e por governos estaduais — serão fundamentais para preparar empresas e produtores locais para aproveitar plenamente os benefícios do acordo. A articulação entre setor público, iniciativa privada, universidades e centros de pesquisa também será essencial para estimular inovação, sustentabilidade e competitividade sistêmica.
Com uma estratégia bem coordenada, o Nordeste pode se consolidar como um dos principais vetores do comércio exterior brasileiro na próxima década. Caso o acordo Mercosul–União Europeia seja efetivamente ratificado, esse movimento tende a se intensificar, ampliando a presença das empresas nordestinas no cenário global, gerando emprego, renda e desenvolvimento regional sustentável. Assim, a votação desta quarta-feira é acompanhada com grande expectativa por governos, empresários e produtores locais, que enxergam no tratado não apenas um acordo comercial, mas uma oportunidade concreta de reposicionar o Nordeste como fornecedor competitivo, inovador, sustentável e estratégico no mercado internacional.