
O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã tem provocado reflexos imediatos na economia global e já começa a afetar diretamente setores estratégicos no Brasil, especialmente o agronegócio. Um dos principais impactos percebidos no curto prazo é a forte elevação do preço do diesel, combustível essencial para o funcionamento das atividades agrícolas. Representantes do setor alertam que o aumento dos custos energéticos surge justamente em um período crítico para os produtores rurais, quando ocorre grande movimentação logística relacionada à colheita e ao transporte das safras.
Esse cenário está diretamente ligado à valorização das cotações internacionais do petróleo, intensificada pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio. No dia 9 de outubro, o preço do barril ultrapassou a marca de US$ 119, atingindo o nível mais alto desde meados de 2022, embora tenha apresentado alguma oscilação ao longo do mesmo dia. A escalada nos preços reflete o temor do mercado de que o conflito possa comprometer o fornecimento global de petróleo, uma vez que a região concentra importantes produtores e rotas estratégicas de exportação da commodity.
Segundo Bruno Lucchi, diretor-técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a alta do diesel já gera grande preocupação entre os produtores rurais. Ele destacou que, em poucas semanas, o valor do barril de petróleo passou de aproximadamente US$ 80 para a faixa próxima de US$ 100, o que inevitavelmente pressiona os custos de produção agrícola. Como o combustível é amplamente utilizado nas operações de campo e no transporte da produção, qualquer variação significativa no seu preço impacta diretamente a rentabilidade do produtor.
Outro fator que agrava a situação é a dependência externa do país em relação ao diesel. Atualmente, cerca de 30% do combustível consumido no Brasil é importado, o que torna o mercado interno bastante sensível às oscilações internacionais do petróleo. Dessa forma, quando há um aumento expressivo no preço do barril no mercado global, o efeito tende a se refletir rapidamente nas bombas e nos custos logísticos do setor produtivo.
A alta do diesel ocorre justamente em um momento de intensa atividade no campo. O agronegócio brasileiro atravessa uma fase de grande demanda operacional, marcada pelo escoamento de uma safra recorde de soja, pela conclusão da colheita da oleaginosa ainda presente em algumas áreas e pelo encerramento do plantio da segunda safra de milho, conhecida como “safrinha”, que representa a principal produção do cereal no país. Todas essas etapas dependem fortemente do uso de máquinas agrícolas, caminhões e equipamentos que operam predominantemente com diesel.
Além da colheita e do transporte, o combustível também é indispensável para diversas outras atividades dentro das propriedades rurais, como a aplicação de defensivos agrícolas, a distribuição de fertilizantes, o preparo do solo e a manutenção das lavouras. De acordo com Lucchi, diferentemente de insumos como fertilizantes — cuja compra pode, em alguns casos, ser adiada ou planejada com antecedência — o diesel precisa ser utilizado de forma imediata para garantir a continuidade das operações no campo. Isso significa que o produtor não tem grande margem para esperar por uma eventual queda nos preços.
Relatos vindos de diferentes regiões produtoras indicam que o problema já começa a se intensificar. Produtores afirmam estar enfrentando tanto aumento nos preços quanto dificuldades no abastecimento, especialmente no estado do Rio Grande do Sul. Em algumas localidades, postos e distribuidoras estariam restringindo a oferta do combustível, o que tem gerado preocupação adicional no setor agrícola.
Levantamentos da CNA apontam que o preço do diesel já registrou elevações de aproximadamente R$ 1 por litro em diversas regiões do Centro-Oeste e do Sul do país. Em termos percentuais, esse aumento representa uma alta superior a 15% em comparação aos valores praticados anteriormente. Em algumas áreas específicas, a elevação chega a cerca de R$ 1,50 por litro, ampliando ainda mais a pressão sobre os custos operacionais das propriedades rurais.
Diante das denúncias de irregularidades no fornecimento de combustível, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) decidiu abrir uma investigação para apurar possíveis práticas abusivas no mercado. Há suspeitas de que algumas distribuidoras estejam limitando a venda de diesel enquanto aguardam novos reajustes de preços, estratégia que poderia elevar ainda mais o valor final do produto.
Para especialistas do setor, essa situação pode gerar efeitos significativos na estrutura de custos do agronegócio. Cleiton Gauer, superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), explica que despesas com diesel e lubrificantes normalmente representam cerca de 5% do custo total da produção agrícola. No entanto, com a recente escalada dos preços do combustível, essa participação tende a aumentar, pressionando ainda mais o orçamento dos produtores e reduzindo as margens de lucro.
A preocupação também foi manifestada pela Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), que informou ter recebido um número crescente de reclamações por parte dos agricultores sobre a elevação dos preços e as dificuldades de acesso ao diesel. A entidade orienta os produtores a formalizarem denúncias sempre que identificarem aumentos considerados abusivos ou restrições injustificadas na venda do combustível.
Essas denúncias podem ser encaminhadas a órgãos de fiscalização e investigação, como o Ministério Público, a Polícia Civil, a Polícia Federal e a própria ANP. O objetivo é reunir informações suficientes para verificar se há práticas de especulação ou manipulação da oferta no mercado de combustíveis, garantindo maior transparência e evitando prejuízos ainda maiores para o setor produtivo.
Caso a tendência de alta do petróleo se mantenha, especialistas avaliam que os impactos poderão se estender para além do agronegócio, afetando também o transporte, a inflação e o custo de diversos produtos no país. Para o campo brasileiro, no entanto, o momento exige atenção redobrada, já que a combinação entre custos elevados e operações intensas durante o período de safra pode comprometer parte dos resultados econômicos da produção agrícola.