
Pesquisadores da Universidade de Pernambuco (UPE) desenvolveram o aplicativo Avaliação Neurológica Simplificada Digital (ANSd), que tem como objetivo agilizar os exames de hanseníase e substituir registros feitos manualmente em papel. O projeto, iniciado em 2024, visa facilitar os processos dentro dos hospitais, tornando o registro e análise dos dados mais eficientes e acessíveis. Em abril, o Hospital Otávio de Freitas, localizado no bairro do Tejipió, Zona Oeste do Recife, será o primeiro a testar a ferramenta, refletindo sua função de referência estadual no tratamento da hanseníase.
O aplicativo faz parte do projeto hansen.ai, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Coordenado pela doutora em Ciência da Computação Patricia Endo, o desenvolvimento do ANSd surgiu ao observar a dependência da documentação em papel no hospital, que dificultava a organização e o acesso rápido às informações dos pacientes. A avaliação dos pacientes inclui testes de sensibilidade neurológica feitos por especialistas, com registros de respostas a estímulos táteis, dolorosos e térmicos, que antes eram anotados em fichas físicas utilizando diferentes cores, um método suscetível a erros e à deterioração.
A digitização por meio do aplicativo proporciona maior qualidade e precisão na coleta dos dados, facilitando o trabalho dos profissionais de saúde que já estão habituados ao formulário adotado pelo Ministério da Saúde, pois o ANSd reproduz a ficha oficial. A especialista e pesquisadora da UPE, Danielle Moura, destaca que o aplicativo responderá a uma demanda histórica do Sistema Único de Saúde (SUS), possibilitando uma avaliação neurológica sistemática e padronizada em toda a rede de atendimento.
Além de reduzir a perda de informações e facilitar análises epidemiológicas, o aplicativo promete garantir o preenchimento completo das fichas, o que pode ajudar no diagnóstico precoce de alterações nos pacientes. A hanseníase, doença infectocontagiosa causada pela Mycobacterium leprae, afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo causar incapacidades físicas graves se não tratada a tempo.
Dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2024, foram registrados 22.129 novos casos do país, com 36,5% dos pacientes apresentando grau 1 de incapacidade física. Pernambuco notificou 1.699 casos no mesmo ano, e 12,5% desses pacientes avaliados foram diagnosticados com grau 2 de incapacidade, demonstrando a necessidade urgente de mais eficiência no diagnóstico. O projeto envolve ainda parceiros como o Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), reunindo 23 pesquisadores. Entre outras inovações, estão previstos um modelo preditivo com inteligência artificial para identificar pacientes com maior risco de agravamento e um aparelho para avaliação sensitiva.
Apesar dos avanços, desafios permanecem, como a necessidade de equipamentos no hospital e a burocracia para a implementação em larga escala. Além do aplicativo para os profissionais, uma plataforma para pacientes será lançada para acompanhamento de saúde e orientações. O ANSd representa um passo importante para modernizar o atendimento e diagnóstico da hanseníase em Pernambuco e no Brasil.