
Aplicativos que reproduzem sons de chiado, conhecidos como “ruído rosa”, para ajudar no sono podem prejudicar a qualidade do descanso, segundo estudo recente da Universidade da Pensilvânia, nos EUA. A pesquisa, publicada na revista científica Sleep, especializada em medicina do sono, analisou os efeitos desses sons em voluntários expostos a ruídos de aviões, simulando uma situação comum para quem vive próximo a aeroportos.
O experimento acompanhou durante sete dias o sono de 25 pessoas na cidade da Filadélfia. Enquanto parte dos participantes utilizou aplicativos de ruído rosa para tentar atenuar o barulho intermitente, outro grupo usou protetores auriculares tradicionais. A qualidade do sono foi avaliada por meio de polissonografia, que monitora a atividade cerebral, movimentos oculares e musculares, além de outros sinais fisiológicos. Pela manhã, ainda foram aplicados testes de atenção, função cardiovascular e audição.
Os resultados indicaram que os indivíduos que usaram protetores auriculares tiveram melhor qualidade do sono em comparação com aqueles que utilizaram ruído rosa. Curiosamente, quem ouviu o chiado apresentou um desempenho até inferior aos que ficaram expostos apenas ao ruído dos aviões sem qualquer proteção. Embora esse tipo de ruído tenha favorecido a fase N3 do sono, conhecida como sono profundo, ele causou maior fragmentação do sono REM, que é crucial para a recuperação cerebral e está relacionado aos sonhos.
Os autores, liderados pelo psiquiatra Mathias Basner, destacaram que usar ruído rosa durante o ruído ambiente revelou-se uma estratégia ineficiente e prejudicial à estrutura do sono. Além de diminuir o tempo contínuo do sono REM, esses sons aumentaram em média 15 minutos o período em que os voluntários permaneceram na cama sem conseguir adormecer. Ainda que algumas pesquisas anteriores sugerissem benefícios de ruídos de banda larga, como branco, marrom ou rosa, Basner ressalta que as condições dos estudos são muito variadas, dificultando conclusões definitivas. Ele salienta a importância de se investigar os efeitos desses aplicativos, que são amplamente usados pela população.
O pesquisador também alerta para o uso desses sons em bebês e crianças pequenas, devido à redução do sono REM diagnosticada, que pode afetar a formação da memória, o desenvolvimento do cérebro e a regulação emocional. Por isso, ele sugere que o uso popular desses ruídos em recém-nascidos e crianças seja desencorajado.
Não existem atualmente diretrizes médicas específicas que recomendem o uso de ruídos artificiais para tratar insônia ou outros distúrbios do sono. Os autores defendem que, por enquanto, a opção mais segura e eficaz continua sendo o uso de protetores auriculares. No experimento, os tampões mostraram-se eficientes na maioria dos casos, embora percam eficácia quando o ruído ultrapassa 65 decibéis. Basner conclui que ainda são necessários novos estudos para determinar em quais situações os sons artificiais podem ser úteis ou prejudiciais para o sono.