
O processo de esvaziamento e degradação do patrimônio histórico das capitais nordestinas começa a encontrar resistência na iniciativa privada e no planejamento urbano criativo. No coração da região central de João Pessoa, um casarão residencial que permaneceu completamente fechado e abandonado por cerca de cinco décadas — localizado nas imediações do icônico e antigo Clube Astréa — ganhou um novo destino. Sensibilizada pelo estado de ruínas do imóvel, a arquiteta Beatriz Campelo consolidou a aquisição da propriedade após um prolongado período de negociações jurídicas e deu início a um minucioso projeto de restauro, transformando a estrutura esquecida em um futuro espaço de convivência, cultura e preservação identitária.
A decisão de investir no Centro Histórico, embora vista com cautela por investidores tradicionais do mercado imobiliário, foi encarada de forma natural pela profissional. O desejo de transferir a sede de seu escritório técnico de arquitetura para um imóvel dotado de quintal original, fundindo sua atuação à paixão por casarões antigos e mobílias de época, funcionou como o principal combustível para o projeto.
“Havia uma melancolia muito grande em caminhar pelas ruas do Centro e testemunhar o apagamento da nossa história através do abandono daquele casarão. Essa inquietação foi o gatilho necessário para assumir o risco e iniciar o resgate”, pontua Beatriz Campelo.
Simbose urbana: A árvore que virou parte da arquitetura
O maior desafio técnico da engenharia de restauro nesse casarão, manifestou-se na forma como a natureza reivindicou o espaço ao longo das últimas cinco décadas. Sem a interferência humana, árvores, cipós e sistemas radiculares complexos romperam pisos e se espalharam pelas estruturas de alvenaria de tijolo e argamassa de cal. O caso mais emblemático e de maior impacto visual é o de uma árvore de grande porte cujo tronco e ramificações cresceram incrustados diretamente na fachada principal do casarão, criando uma relação estética singular entre o tecido urbano e o bioma nativo.
Em vez de optar pela supressão vegetal imediata — o que comprometeria a estabilidade de parte das paredes desse casarão e apagaria a crônica do tempo —, Beatriz desenhou uma solução arquitetônica de integração. O projeto estrutural preservará a harmonia dessa simbiose, escorando e tratando a vegetação para que ela permaneça acoplada à volumetria recuperada do imóvel. O prumo da reforma visa estabilizar as patologias da edificação colonial sem camuflar as marcas deixadas pelas décadas de isolamento, valorizando a biofilia.
As obras de consolidação civil e restauro decorativo foram iniciadas recentemente e possuem um cronograma de execução complexo, programado para estender-se até o ano de 2027. Embora o layout definitivo das frações do imóvel ainda receba ajustes, o plano diretor do casarão prevê uma ocupação mista: além do ateliê de arquitetura de Beatriz, o endereço abrigará um café gourmet ou uma adega de destilados e vinhos finos, integrados a um mini-jardim botânico composto por plantas nativas da caatinga e do ecossistema costeiro paraibano.
Mercado de retrofits: Alto risco e alto retorno no Centro Histórico
A reabilitação pilotada pela arquiteta insere-se em uma vertente imobiliária que ganha tração nas principais metrópoles globais: o nicho de ativos abandonados retrabalhados sob o conceito de retrofit. Para fundos e investidores arrojados, a aquisição de imóveis degradados em perímetros consolidados representa uma operação de alto risco, mas dotada de uma assimetria de retorno altamente vantajosa, dado o baixo custo de aquisição da terra nua e o posterior ganho de capital após a valorização e reposicionamento comercial do endereço.
O esvaziamento do Centro de João Pessoa acentuou-se nos últimos anos em decorrência de mutações severas no comportamento de consumo e na mobilidade urbana da população. O fenômeno foi severamente acelerado pelos desdobramentos da pandemia, que desidratou o comércio de rua tradicional e deslocou eixos de escritórios corporativos em direção aos bairros da orla e zonas de expansão.
De acordo com a análise do promotor Edmilson Campos Leite, a decadência momentânea da região central está umbilicalmente ligada a fatores macroeconômicos modernos, como a consolidação das plataformas de e-commerce e a digitalização bancária, ferramentas que reduziram de forma drástica a necessidade de deslocamento físico dos cidadãos para a aquisição de bens e serviços básicos.
Projeto Viva o Centro projeta injeção de R$ 400 milhões na região
Para frear o prumo de degradação e atrair novos moradores e comerciantes para o perímetro histórico, a máquina pública municipal estruturou o programa Viva o Centro. O plano de revitalização urbana e econômica engloba um robusto pacote de investimentos públicos estimados na ordem de R$ 400 milhões, desenhado sob uma matriz de incentivos integrados:
- Incentivos Fiscais: Concessão de isenções e reduções drásticas em alíquotas de IPTU e ISS para empresas, polos de tecnologia, escritórios criativos e comércios que se instalarem no perímetro central;
- Fomento Econômico: Criação de linhas de microcrédito subsidiadas para pequenos empreendedores e artesãos locais;
- Habitação de Interesse Social: Construção e reforma de conjuntos habitacionais voltados a fixar a população residente na região, garantindo densidade demográfica ativa durante o período noturno;
- Circuito Cultural: Calendário permanente de eventos, feiras de cachaças artesanais, festivais de música e ocupação de praças públicas.
A convergência entre o arrojo de iniciativas individuais de restauro, como a liderada por Beatriz Campelo, e a segurança jurídica fornecida pelas políticas públicas estruturadas é considerada vital por urbanistas para resgatar a atratividade econômica de João Pessoa. Ao conferir novos usos contemporâneos a casarões que outrora pareciam condenados à demolição, a cidade não apenas salva suas fundações históricas, mas abre novas perspectivas de turismo sustentável, lazer e valorização imobiliária para as próximas décadas.
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