
No mês do Dia Internacional da Mulher, os avanços das mulheres no Judiciário brasileiro refletem importantes conquistas, mas também indicam desafios que permanecem, especialmente nos níveis hierárquicos mais elevados. Apesar de serem maioria entre os servidores, as mulheres representam apenas 25,7% dos cargos de segundo grau, demonstrando uma sub-representação nos postos de maior poder e decisão, conforme dados do Conselho Nacional de Justiça.
Um exemplo significativo dessa realidade é a desembargadora Anna Carla Lopes, do Tribunal de Justiça da Paraíba, que se tornou a primeira mulher a ocupar a vaga do quinto constitucional da Ordem dos Advogados do Brasil naquela instituição, após quase um século. Sua trajetória partiu da advocacia, com quase vinte anos dedicados ao Direito de Família e Sucessões, influenciada pela mãe, defensora pública e referência na proteção dos direitos das mulheres.
Em entrevista, Anna Carla revelou que sua carreira na magistratura não foi planejada, mas construída a partir de uma vivência prática na advocacia. Ela relata ter experimentado um “machismo silencioso” e resistência durante o processo de escolha para o quinto constitucional, apesar de sua competência técnica e esforço. Essa situação evidencia as barreiras invisíveis existentes à ascensão feminina no Judiciário.
O processo de escolha também incluiu uma inovação relevante: pela primeira vez, a OAB apresentou uma lista sêxtupla paritária, equilibrando homens e mulheres, o que reflete políticas afirmativas voltadas a promover a equidade. Para Anna Carla, essas políticas são essenciais para corrigir desigualdades históricas e aumentar a participação feminina nos espaços decisórios, reforçando que sua conquista foi fruto de mérito, mas que a paridade ampliou as oportunidades para outras mulheres.
Embora as mulheres estejam em maioria na base do sistema jurídico, sua presença diminui nos cargos mais altos, como observado no Tribunal de Justiça da Paraíba, onde apenas cinco dos 26 desembargadores são mulheres. A desembargadora ressalta que os direitos femininos foram assegurados há pouco tempo no Brasil, o que contribui para essa desproporção.
Além da representatividade, a presença feminina influencia diretamente na aplicação da Justiça, especialmente em temas como direito de família, violência de gênero e guarda de filhos. Anna Carla enfatiza a importância da diversidade para decisões mais justas e a necessidade de mais mulheres nos espaços de poder, sem excluir os homens, mas promovendo equilíbrio e pluralidade de perspectivas.
Para o futuro, a desembargadora defende a importância de as mulheres ocuparem esses espaços e apoiarem umas às outras, formando redes de fortalecimento no Judiciário. Ela acredita que, apesar dos desafios, a luta por igualdade de gênero segue em progresso e que sua trajetória pode inspirar outras mulheres a alcançarem posições de destaque, reafirmando que a persistência e o trabalho são fundamentais para o avanço feminino no Judiciário.