
As camisas de blocos de carnaval em Pernambuco deixaram de ser simples peças de roupa para se tornarem verdadeiros símbolos culturais que reforçam a identidade dos foliões e a ligação com suas agremiações. Muito além de um mero instrumento de identificação durante os desfiles, esses artigos são carregados de narrativas, homenagens e artes que celebram tradições e pessoas importantes para o carnaval local. Um exemplo marcante é a camiseta da troça carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos, conhecida nacionalmente por ter sido usada pelo ator Wagner Moura no filme “O Agente Secreto”. Esse modelo tornou-se objeto de desejo rapidamente, demonstrando o poder das camisas em unir cultura e moda dentro da folia.
No carnaval de Olinda deste ano, blocos como o Escuta Levino, criado em 1997, lançaram camisas que expressam reverência ao Maestro Lessa, homenageado da festa. Escolhendo a frase “Evoé Lessa” para estampar a camisa oficial, a agremiação presta tributo ao líder da orquestra de frevo que marcou a música local por décadas até seu falecimento em 2025. O diretor do bloco, Lucas Correia, destaca que essa homenagem é também uma extensão da parceria mantida ao longo dos carnavais.
De acordo com Hugo Cavalcanti, professor de design e pesquisador, a procura crescente por essas camisas demonstra a vontade dos foliões de se identificarem mais profundamente com o carnaval e seus elementos culturais. “É uma maneira de expressar que a identidade do folião está ligada daquele grupo, mostrando conhecimento sobre frevo e suas origens”, analisa.
Para o carnaval de 2026, o Escuta Levino apostará na temática do circo, refletida nas estampas de suas camisas. Outro exemplo é o Bloco da Saudade, fundado em 1974, cuja presidente Izabel Bezerra ressalta que cada ano a demanda pelas camisas é enorme e que as peças resgatam a preservação da cultura e das cores tradicionais do carnaval, atualmente homenageando a Escola Pernambucana de Circo.
Além do aspecto cultural, as vendas das camisas são vitais para a sustentabilidade financeira desses blocos e para garantir a realização dos eventos, bem como a remuneração dos envolvidos. Segundo Hilton Santana, diretor de comunicação do Cariri Olindense — bloco com mais de 100 anos de história — as vendas podem representar até 30% do orçamento da agremiação. O investimento crescente na criatividade das estampas tem contado com a participação de designers que ajudam a transformar a peça em um patrimônio valorizado e muito cobiçado pelos foliões. Assim, as camisas de bloco de carnaval se consolidam não apenas como roupas, mas como elementos essenciais de conexão e expressão da cultura pernambucana.