
A indústria brasileira enfrenta um processo de desaceleração, refletido principalmente pela política de juros altos adotada para conter a inflação, pela queda da demanda e pelo aumento da competição com produtos importados. Conforme a análise da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), a recuperação do setor deverá ocorrer em ritmo lento e somente após 2027, diante da previsão de juros ainda elevados em 2026.
Segundo os dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) divulgados pelo IBGE em 3 de fevereiro, a produção industrial recuou 1,2% entre novembro e dezembro. No acumulado de 2025, o crescimento foi de apenas 0,6%, abaixo do avanço de 3,1% registrado ao longo de 2024.
De acordo com André Macedo, gerente da pesquisa, essa desaceleração é evidente, especialmente na segunda metade de 2025, quando a indústria deixou de crescer, após um aumento de 1,2% no primeiro semestre. Ele relaciona essa perda de dinamismo à política monetária mais rígida, que com o aumento da taxa de juros, impacta diretamente as decisões de investimento empresarial e o consumo das famílias.
O economista Matheus Pizzani, do PicPay, destaca que a demanda insuficiente tem afetado a produção industrial e gerado cautela quanto às expectativas futuras dos produtores. Já Leonardo Costa, economista do ASA, aponta que o desempenho de dezembro reforça a desaceleração mais clara da indústria, principalmente nos setores cíclicos e dependentes de crédito, como bens de capital e duráveis, apesar de certa resistência nos segmentos ligados a commodities e energia. Para ele, o ambiente de maior restrição financeira com demanda moderada causou essa perda de ritmo.
Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, acredita que o cenário continuará marcado por uma recuperação lenta. Os juros elevados impactam não só a demanda por bens industriais, mas também a saúde financeira do setor, as decisões de investimento e a competitividade. A alta importação, consequência da política tarifária dos Estados Unidos durante o governo Trump, também contribuiu para o enfraquecimento da indústria, já que exportadores que perderam mercado americano buscaram o Brasil como alternativa para suprir suas necessidades.
Mesmo com a perspectiva de cortes na taxa Selic, atualmente em 15% e projetada para terminar o ano em 12,5%, Azevedo avalia que essas reduções serão tímidas e demorarão a refletir na economia. Dessa forma, a indústria só deve começar a se recuperar depois de 2027, ainda carregando uma “âncora pesada”.
Para 2026, Pizzani projeta crescimento de 1,8% para a indústria, baseado na expectativa de uma melhora gradual ao longo do ano devido à queda da inflação e das taxas de juros, o que beneficiará especialmente o consumo de bens não duráveis, mais sensíveis à renda e preços disponíveis às famílias.