João Pessoa 28.13 nuvens dispersas Recife 28.02 nuvens dispersas Natal 28.12 nuvens dispersas Maceió 29.69 algumas nuvens Salvador 27.98 nublado Fortaleza 29.07 céu limpo São Luís 30.11 algumas nuvens Teresina 34.84 nuvens dispersas Aracaju 27.97 nuvens dispersas
Cobogó: a solução brasileira para o calor intenso em construções modernas
29 de dezembro de 2025 / 11:16
Foto: Divulgação

No alto do sítio histórico de Olinda, Pernambuco, destaca-se um reservatório de água dos anos 1930 que foge do padrão usual. Diferente das caixas-d’água convencionais, essa estrutura desenhada pelo arquiteto Luiz Nunes utiliza cobogós em sua fachada, um elemento construtivo criado no Recife alguns anos antes. Esta inovação marcou a primeira vez que um edifício de destaque nacional apresentava uma fachada “vazada”, influenciando diversos projetos arquitetônicos nas décadas seguintes em capitais como Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, além de residências por todo o Brasil. Recentemente, o cobogó voltou a ser valorizado por arquitetos que reconhecem seu potencial para amenizar o calor intenso, principalmente por sua capacidade de bloquear o sol, permitir a entrada de luz natural e garantir a circulação de ventos, promovendo conforto térmico aliado à privacidade.

O cobogó foi uma solução modernista do século 20 que proporcionava climatização passiva antes da popularização do ar-condicionado, com a função de criar uma camada protetora que ajudava a manter a temperatura agradável. Arquiteta especialista em modernismo na Universidade Federal de Pernambuco, Guilah Naslavsky, considera o cobogó uma solução bioclimática emblemática que alia sustentabilidade e estética na arquitetura brasileira. Marcella Arruda, co-curadora da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, ressalta sua importância como um ícone da arquitetura nacional. Embora a Caixa D’Água de Olinda já tenha enfrentado problemas de manutenção e esteja fechada ao público, seu uso original de cobogós ajudava a preservar a temperatura da água no tanque, atuando como uma barreira solar e facilitando a circulação do ar.

Além do Recife, o Rio de Janeiro e Brasília adotaram o uso do cobogó em construções modernas, inserindo-o como um elemento funcional e simbólico da arquitetura nacional. A peça, originalmente criada por três engenheiros residentes no Recife – Coimbra, Boeckmann e Góis -, nasceu como um bloco de cimento pré-fabricado para facilitar e baratear construções, sem uma preocupação estética inicial. Posteriormente, sua aplicação passou a contemplar também seu efeito estético e funcional, como proteção solar e ventilação, disseminando-se em residências no Nordeste e tomando identidade visual popular. Nos dias atuais, o cobogó é redescoberto em projetos arquitetônicos para promover conforto térmico e divisões internas que permitem a circulação de luz e ar, sendo associado a uma estética que remete à memória afetiva e tradição.

Apesar de alguns confundirem sua origem, o cobogó não é diretamente derivado da arquitetura árabe ou indígena, embora compartilhe propósitos semelhantes, como a entrada controlada de luz e ventilação em climas quentes. Em meio a uma crise climática e o aumento das temperaturas, o cobogó surge como uma alternativa viável para construções mais sustentáveis e confortáveis, ainda que sua inclusão em novos edifícios seja limitada pela urbanização intensa e receios sobre a exposição ao ambiente externo. Pesquisadores e arquitetos enxergam um potencial para expandir seu uso especialmente em projetos residenciais e mesmo em favelas, onde pode contribuir significativamente para o conforto térmico. Assim, a peça que surgiu há quase um século como solução prática para construção pode se tornar a resposta brasileira para os desafios atuais de calor intenso e sustentabilidade nas cidades.

Copyright © 2025. Direitos Reservados.