
O concurso Deusa do Ébano celebra sua 45ª edição neste sábado (17), reafirmando seu papel histórico no resgate da autoestima das mulheres negras da comunidade do Curuzu, em Salvador. Realizado durante a Noite da Beleza Negra do Ilê Aiyê, no espaço da Senzala do Barro Preto, o evento se consolidou ao longo das décadas como um momento de ressignificação e valorização da identidade negra. A participação das candidatas nesta competição frequentemente representa a primeira oportunidade para se sentirem acolhidas e belas.
Dete Lima, estilista que há quase cinquenta anos cria os figurinos para as participantes, testemunha a transformação proporcionada pelo concurso. Para ela, o evento representa um orgulho e um momento de emoção intensa entre as mulheres que vestem suas criações. A trajetória do Deusa do Ébano começou em 1975, e desde então passou por diversas modificações estruturais, incluindo a inovação adotada em 2004, que proporciona às finalistas um “dia de princesa” em um hotel, promovendo uma imersão para fortalecer laços e autoconhecimento.
Jaci Trindade, organizadora e coordenadora há 22 anos, destaca a importância do concurso para o fortalecimento da identidade e o processo de autorreconhecimento das candidatas, muitas vezes desafiadas a enxergar sua beleza e valor dentro de padrões que valorizam a diversidade negra. Ela ressalta que a mudança de mentalidade ocorreu para que as participantes pudessem deixar rivalidades de lado e priorizar o respeito e o acolhimento mútuo.
A vencedora da edição anterior, Lorena Xavier Silveira Bispo, de 23 anos, acredita que o concurso carrega a força ancestral do Ilê Aiyê e o legado de lideranças como Mãe Hilda Jitolu, sendo um espaço de sabedoria e transformação pessoal para as participantes. Lorena também valoriza o papel fundamental de Dete Lima, que além de vestir as candidatas inspira e conecta histórias de vida e autoestima.
O aspecto psicológico ganhou destaque nos últimos anos, com casos de ansiedade e crises entre as concorrentes devido às pressões familiares e sociais. Visando oferecer suporte adequado, a organização contratou uma psicóloga para acompanhar as participantes desde o ano passado, proporcionando acolhimento e cuidados emocionais.
Além da competição, as selecionadas recebem qualificações em áreas como presença digital, dança afro e cuidado emocional, com o objetivo de prepará-las para suas carreiras e para o compromisso anual de representarem o bloco Ilê Aiyê em eventos como o Carnaval de Salvador. A vitória no concurso abre portas para visibilidade e oportunidades, como viagens internacionais e divulgação artística.
Com um impacto sociocultural relevante, o concurso Deusa do Ébano é motivo de orgulho para organizadores e comunidade. Ao celebrar a beleza negra distante de padrões europeus, a iniciativa fortalece a autocelebração, a representatividade e a transformação social em Salvador e além. As deusas escolhidas mantêm o compromisso de perpetuar esses valores e o legado do bloco, reforçando que, para elas, “uma vez deusa, para sempre deusa”. O concurso segue cumprindo seu papel histórico de inspirar mulheres negras a visualizarem seus sonhos e realizarem suas potencialidades.