
A Prefeitura de Olinda publicou um novo decreto para regulamentar o desfile de agremiações e baterias no Sítio Histórico da cidade durante o carnaval. A medida surge em meio a controvérsias envolvendo grupos de samba, utilização de carros de som e a presença dos chamados “paredões”, que vinham gerando conflitos com blocos e troças tradicionais.
O objetivo da norma é preservar as características históricas do carnaval olindense, reconhecido nacionalmente por sua tradição no frevo, nas orquestras de rua e nos desfiles espontâneos pelas ladeiras da cidade. Nos últimos anos, o crescimento de grupos com baterias organizadas e cordões de isolamento passou a disputar espaço com as agremiações tradicionais, levantando debates sobre circulação, impacto sonoro e descaracterização da festa.
O decreto foi divulgado no dia 11 de março, véspera da abertura oficial do carnaval, após críticas de maestros das principais orquestras de frevo, que demonstraram preocupação com a intensidade do som e com as dificuldades de mobilidade enfrentadas pelos blocos tradicionais. Segundo o secretário de Cultura, Alexandre Miranda, a regulamentação tem caráter inicial e passará por reformulações após o período carnavalesco. Um novo ciclo de debates está previsto para abril, com participação de associações culturais e representantes da sociedade civil.
Entre as principais determinações estão a proibição de pessoas sobre carros de som, a vedação do uso de pirotecnia ao longo dos desfiles, a proibição de entrada de integrantes de baterias em residências e a restrição a paradas prolongadas que comprometam o fluxo dos blocos. O uso de carros de som passa a ser permitido apenas mediante autorização prévia do poder público.
O presidente da Associacao das Agremiacoes de Frevo de Olinda (Afrevo), Sandro Valongueiro, classificou a iniciativa como uma medida emergencial, mas defendeu a continuidade das negociações para aperfeiçoar as regras. Ele destacou ainda a necessidade de ações complementares, como organização do comércio informal, melhoria da iluminação pública e conservação das vias por onde circulam as agremiações.
Valongueiro relembrou que, no último carnaval, o tradicional Desfile dos Bonecos Gigantes enfrentou dificuldades de passagem em frente à sede da prefeitura devido à obstrução provocada por equipamentos de som. O episódio reforçou a necessidade de ordenamento para garantir a fluidez da festa.
As novas regras estabelecem multa de R$ 10 mil para grupos que dificultarem a passagem de blocos tradicionais. Também determinam que haja pelo menos 50 metros de distância entre equipamentos sonoros, a fim de evitar sobreposição e poluição sonora. A velocidade máxima dos veículos que transportam som foi limitada a 10 km/h, sendo proibida a permanência de pessoas sobre essas estruturas.
Além disso, fica expressamente vedada qualquer obstrução física ou sonora que comprometa o caráter tradicional do carnaval. A prioridade é assegurar as “passarelas naturais” da folia — as ruas e ladeiras históricas — para circulação harmoniosa de blocos e foliões.
Apesar das divergências, a Afrevo e a Associação Carnavalesca de Samba de Olinda divulgaram nota conjunta destacando que o diálogo com a administração municipal representa um avanço na construção de soluções equilibradas. O decreto, portanto, marca um novo momento na organização do carnaval de Olinda, buscando conciliar a modernidade dos novos formatos musicais com a preservação do patrimônio cultural que faz da cidade uma das principais referências carnavalescas do Brasil.