
Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios brasileiros em 2023, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam com clareza as profundas desigualdades econômicas regionais, especialmente no Nordeste do Brasil. A análise evidencia um cenário marcado pela forte concentração da atividade econômica em grandes centros urbanos e polos industriais, ao passo que centenas de municípios do interior permanecem com baixos níveis de renda, pouca diversificação produtiva e elevada dependência de transferências governamentais.
No topo do ranking regional, Fortaleza (CE) se destaca como o município com o maior PIB do Nordeste, alcançando R$ 86,9 bilhões, o equivalente a 5,75% de toda a riqueza produzida na região. O resultado coloca a capital cearense à frente de outras grandes capitais nordestinas, como Salvador (BA) e Recife (PE), reforçando seu papel como polo econômico, logístico, comercial e de serviços. O crescimento de Fortaleza está associado à expansão do setor terciário, à infraestrutura urbana, ao turismo e à atração de investimentos privados.
Em contraste extremo, o município de Manari (PE) figura como aquele com o menor PIB per capita do Brasil, registrando apenas R$ 7.201,70 por habitante. Esse dado evidencia o abismo socioeconômico existente não apenas entre estados, mas dentro da própria região Nordeste. A comparação entre Fortaleza e Manari ilustra de forma contundente como a riqueza está concentrada em poucos municípios, enquanto áreas do semiárido nordestino enfrentam sérios entraves estruturais, como escassez de investimentos, baixa industrialização, dependência da agropecuária de subsistência e vulnerabilidade climática.
Além de Fortaleza, outras capitais nordestinas também se destacam pelos altos PIBs municipais, como Salvador (BA), Recife (PE), São Luís (MA) e Maceió (AL). Essas cidades concentram serviços especializados, comércio, atividades portuárias, turismo e administração pública, funcionando como centros econômicos que atraem população, empresas e recursos. No entanto, mesmo dentro dessas capitais, persistem desigualdades internas, com áreas de alta renda coexistindo com bolsões de pobreza.
No estado da Bahia, alguns municípios se sobressaem nacionalmente por suas economias altamente especializadas. Camaçari, São Francisco do Conde e Luís Eduardo Magalhães apresentam desempenhos expressivos graças a atividades como refino de petróleo, indústria petroquímica e agricultura voltada à exportação, especialmente a produção de grãos. Esses municípios demonstram como a presença de grandes empreendimentos industriais e do agronegócio pode elevar significativamente o PIB local, ainda que isso nem sempre se traduza em melhoria proporcional da qualidade de vida para toda a população.
O cenário de concentração econômica também se repete em nível nacional. Os dez maiores municípios brasileiros respondem por 24,5% de todo o PIB do país, com São Paulo liderando de forma isolada, alcançando R$ 1,06 trilhão em riqueza produzida. Em termos de densidade econômica, o município de Osasco (SP) apresenta o maior PIB por quilômetro quadrado, reflexo da intensa concentração de atividades empresariais e industriais em um território relativamente pequeno.
No extremo oposto, municípios como Santo Antônio dos Milagres (PI), além de outras cidades localizadas no Piauí e na Paraíba, registram os menores PIBs nominais do país. Esses resultados estão associados à combinação de baixa população, reduzida atividade econômica e limitada capacidade de geração de renda própria. No Nordeste, além de Manari, diversos municípios do Maranhão aparecem entre os menores PIBs per capita, enfrentando desafios históricos relacionados à pobreza estrutural, infraestrutura precária e menor acesso a oportunidades econômicas.
Apesar das dificuldades, o Nordeste também abriga municípios com altíssima renda por habitante. Um dos principais exemplos é São Francisco do Conde (BA), que possui o segundo maior PIB per capita do Brasil. O desempenho excepcional do município é impulsionado principalmente pelo setor de refino de petróleo, evidenciando como atividades ligadas à exploração e ao processamento de recursos naturais podem elevar rapidamente os indicadores econômicos locais. Não por acaso, entre os seis maiores PIBs per capita do país em 2023, a maioria dos municípios está diretamente ligada ao setor petrolífero, seja na extração, seja no refino.
Segundo o analista do IBGE Luiz Antonio do Nascimento de Sá, mesmo em um cenário nacional menos favorável ao setor de petróleo, novos campos entraram em operação em 2023, beneficiando economicamente algumas cidades e alterando a distribuição da renda em nível municipal. Esse movimento reforça o peso que setores específicos ainda exercem sobre a economia local, sobretudo em municípios altamente dependentes de uma única atividade.
Por fim, as capitais São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília seguem figurando entre as maiores economias urbanas do Brasil desde 2002. No entanto, sua participação relativa no PIB nacional vem diminuindo gradualmente, à medida que outras regiões e municípios ganham relevância econômica com a diversificação produtiva, a interiorização do desenvolvimento e a expansão de novos setores. Os dados de 2023, portanto, não apenas confirmam a persistência das desigualdades regionais, como também apontam para transformações em curso na geografia econômica do país, revelando desafios e oportunidades para um desenvolvimento mais equilibrado.