
O dólar encerrou a sessão desta segunda-feira (23) em queda de 0,14%, cotado a R$ 5,1685, atingindo o menor valor desde 28 de maio de 2024, quando havia fechado a R$ 5,1534. O movimento reforça uma tendência recente de apreciação do real diante da moeda norte-americana, em meio a uma combinação de fatores externos e domésticos que vêm influenciando o comportamento dos investidores. Apesar do alívio no câmbio, o principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa, recuou 0,88%, encerrando o dia aos 188.853 pontos, refletindo um ambiente de cautela nos mercados globais.
A queda do dólar ocorreu após uma decisão relevante da Suprema Corte dos Estados Unidos, que considerou ilegal o chamado “tarifaço” proposto pelo ex-presidente Donald Trump em abril deste ano. Por 6 votos a 3, os ministros entenderam que a International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) não concede ao presidente autoridade para impor tarifas amplas sem a aprovação do Congresso. A decisão representa um freio importante à estratégia comercial adotada pelo governo republicano, baseada na aplicação de tarifas recíprocas como instrumento de pressão econômica.
Entretanto, o cenário está longe de se estabilizar. No último fim de semana, Trump anunciou uma nova rodada de tarifas com base na Trade Act of 1974, especificamente utilizando a Seção 122 da norma. Esse dispositivo permite a imposição temporária de tarifas de até 15% por um período de até 150 dias, enquanto o Congresso analisa a medida. A nova taxa de 15% incide sobre produtos importados de praticamente todos os países que mantêm relações comerciais com os Estados Unidos, com exceções para minerais críticos, determinados produtos agrícolas e componentes eletrônicos considerados estratégicos.
De acordo com estudo da Global Trade Alert, Brasil e China aparecem entre os maiores beneficiados pela reconfiguração das tarifas. No caso brasileiro, a redução média das tarifas alcançaria 13,6 pontos percentuais. Para a maioria dos produtos exportados pelo Brasil, permanecem válidas as tarifas regulares acrescidas do adicional temporário de 15%. Já nos setores de aço e alumínio, as alíquotas seguem elevadas, podendo chegar a 50%, além da nova sobretaxa, o que mantém desafios relevantes para a indústria nacional.
Esse novo arranjo comercial pode gerar ganhos pontuais de competitividade para o Brasil, especialmente em segmentos nos quais o país concorre diretamente com outras economias emergentes. Caso a redução média das tarifas se consolide e haja estabilidade nas regras, exportadores brasileiros podem ampliar participação no mercado norte-americano. No entanto, a volatilidade externa e a imprevisibilidade das decisões em Washington continuam sendo fatores de risco.
No cenário doméstico, o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central do Brasil, também influenciou as expectativas do mercado. Economistas reduziram pela sétima semana consecutiva a projeção da inflação para 2026, de 3,95% para 3,91%, e mantiveram a estimativa de 3,80% para 2027. Caso essas previsões se confirmem, a inflação de 2026 ficará abaixo da registrada em 2025, quando o índice fechou em 4,26%. Esse movimento reforça a percepção de que o ciclo de aperto monetário pode ter chegado ao fim e abre espaço para cortes graduais na taxa básica de juros.
A expectativa para a Selic ao final de 2026 recuou de 12,25% para 12,13% ao ano, enquanto a projeção para 2027 permaneceu em 10,50%. Já a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 subiu levemente, de 1,80% para 1,82%, sinalizando um ambiente de atividade moderada, porém resiliente. Em relação ao dólar, o mercado projeta cotação de R$ 5,45 ao final de 2026 e R$ 5,50 em 2027, indicando que, apesar do alívio recente, ainda há expectativa de depreciação cambial no médio prazo.
Nos Estados Unidos, os principais índices de Wall Street fecharam em baixa, refletindo a incerteza quanto aos rumos da política comercial e seus possíveis impactos sobre a inflação e o crescimento. Na Europa, o índice STOXX Europe 600 caiu 0,45%. O DAX, da Alemanha, recuou 1,06%, enquanto o CAC 40 teve queda de 0,22%. Já o FTSE 100, no Reino Unido, encerrou praticamente estável.
Na Ásia, parte das bolsas permaneceu fechada devido a feriados, reduzindo o volume de negociações. Ainda assim, o Hang Seng Index avançou 2,5% em Hong Kong, enquanto o KOSPI, na Coreia do Sul, registrou alta de 0,7%, sinalizando um desempenho mais positivo na região.
Para o Brasil, o cenário combina oportunidades e riscos. A queda do dólar, aliada à expectativa de inflação menor e à possibilidade de redução gradual dos juros, tende a criar um ambiente mais favorável para o câmbio e para setores dependentes de importações. Por outro lado, a bolsa de valores segue sensível ao noticiário internacional e às mudanças na política comercial norte-americana. No curto prazo, os investidores devem acompanhar atentamente os desdobramentos em Washington, além de indicadores domésticos relevantes, como o IPCA-15 e os dados de emprego, que podem redefinir expectativas sobre juros, crescimento e fluxo de capital estrangeiro.