
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), medido pelo Instituto Brasileiro de Economia (FGV-Ibre), registrou uma aceleração nos preços do setor da construção civil em janeiro de 2025. O índice cresceu 0,63% no mês, acumulando alta de 6,01% nos últimos 12 meses. Esse avanço ocorreu em meio a custos já elevados na indústria. Para se ter uma ideia, em janeiro de 2024 a alta foi ainda maior, de 0,71%, terminando o ano com aumento de 6,10%.
Segundo a pesquisadora Ana Maria Castelo, responsável pelo monitoramento do INCC, o momento atual representa uma fase de acomodação após sucessivos choques econômicos. Contudo, um dos principais fatores que pressionam o índice vem do grupo Mão de Obra, motivado pela escassez de profissionais no setor da construção civil. Em janeiro, essa categoria registrou aumento superior a 1%, acumulando em 2025 variação de 9,23%, bem acima da inflação oficial do país, que ficou em 4,26% no último ano.
A dificuldade em atrair trabalhadores para a construção civil é crescente, refletida pela idade média dos profissionais que já chega a 42 anos em São Paulo. O mercado aquecido, com taxas históricas de emprego, além da crescente plataforma de trabalho autônomo, impacta diretamente na contratação desses profissionais. Na construção, a necessidade por mão de obra qualificada e o longo ciclo das obras dificultam ainda mais a reposição dos trabalhadores.
Eduardo Zaidan, vice-presidente de Economia do Sinduscon-SP, ressalta que setores com grande participação da mão de obra, como a construção civil, enfrentam desinteresse das gerações mais jovens, que preferem trabalhos autônomos e rápidos, diferentemente do perfil das obras que costumam durar de 20 a 30 meses. Além disso, existe o risco frequente do desemprego em períodos de baixa demanda.
Para aliviar a pressão causada pela escassez de mão de obra, o setor tem apostado no aumento salarial, programas de requalificação em parceria com o Senai e iniciativas para a inclusão de mais mulheres na construção. João Pedro Camargo, sócio da Liv Incorporadora em São Paulo, destaca que o gargalo atual está justamente na execução das obras, pois a falta de mão de obra e custos elevados de insumos comprimem as margens de lucro das empresas.
Outra resposta para o desafio tem sido o investimento em produtividade por meio da industrialização dos canteiros, com uso crescente de pré-fabricação, construção modular, tecnologia e digitalização. Luiz França, presidente da Abrainc, comenta que essas inovações ajudam a reduzir a dependência de profissionais escassos e a manter o crescimento diante da forte demanda estrutural.
Além disso, Zaidan destaca melhorias na padronização de projetos e equipamentos que contribuem para esse aumento da produtividade. Segundo ele, há muito progresso principalmente na construção de habitação de baixa renda, com maior eficiência e continuidade dos programas habitacionais que, juntos, têm potencial para sustentar a produtividade no setor.
Quanto ao efeito no preço final dos imóveis, Zaidan explica que a relação não é direta, já que o valor envolve outras variáveis, como o preço dos terrenos. No entanto, o aumento do INCC impacta principalmente as parcelas de imóveis comprados na planta, que são reajustadas pelo índice. A valorização do metro quadrado nos últimos anos tem superado os custos e é impulsionada por uma demanda sólida, mercado de trabalho estável e déficit habitacional significativo.
Por fim, a pesquisadora Ana Maria Castelo ressalta que, embora o principal custo do INCC esteja na mão de obra, o grupo de Materiais e Equipamentos também influenciou os preços, sobretudo durante a pandemia, quando os valores de aço e PVC chegaram a dobrar. Atualmente, esses custos estão tendendo à normalização, o que alivia parcialmente a pressão sobre o orçamento das obras.
O Índice de Confiança da Construção (ICST) registrou crescimento em janeiro para 94,0 pontos, batendo recorde desde março de 2025, impulsionado por perspectivas positivas de investimentos e programas habitacionais, embora a escassez de mão de obra permaneça um desafio para o setor.