
João Pessoa vive um momento emblemático de transformação urbana e econômica, impulsionado pela crescente demanda turística e por um movimento de investimentos privados e públicos que desembocam no Polo Turístico Cabo Branco. Concebido como o maior complexo turístico planejado em execução no Brasil, o Polo reunirá hotéis, resorts, parques temáticos e aquáticos, além de equipamentos de apoio e comércio, em uma área de 654 hectares.
Embora a expectativa pelo novo vetor de desenvolvimento na região leste da capital continue alta, os cronogramas de alguns empreendimentos tornaram-se mais flexíveis diante de fatores operacionais que impactaram prazos originalmente projetados. Entre esses fatores, dois se destacam e têm sido citados por empreendedores, especialistas e gestores como determinantes para os ajustes de calendário nas obras: as chuvas intensas e prolongadas do ano passado e a escassez de mão de obra em todos os setores da economia, principalmente na construção civil.
O ano de 2025 registrou volumes pluviométricos (chuvas) atípicos na Paraíba, com precipitações acima das médias históricas em diversos meses, o que trouxe desafios adicionais para a execução de etapas críticas de obra, como terraplenagem, drenagem e fundações, que dependem de janelas de tempo seco para avançar com segurança e eficiência. Embora os dados oficiais sobre as chuvas ainda estejam sendo compilados, técnicos do setor climático e da construção alertaram para uma tendência de chuva persistente e volumosa no período, superior a anos anteriores, sobrecarregando canteiros e exigindo replanejamentos técnicos.
A esse quadro climático somou-se um fenômeno mais estrutural da economia nacional: a escassez de mão de obra na construção civil. Pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas revelou que cerca de 82% das empresas do setor relataram dificuldade para recrutar trabalhadores, especialmente para funções especializadas e operacionais, como eletricistas, carpinteiros e mestres de obra, níveis não vistos em mais de uma década. Dados de sondagens do setor também indicam que essa dificuldade persiste em grande parte dos segmentos da construção, e que a pressão por profissionais qualificados tornou-se o principal entrave à produtividade e à conclusão de obras no prazo inicialmente previsto.
Especialistas em engenharia e gestão de projetos ressaltam também que obras de grande porte, que demandam a preparação e estruturação de grandes áreas, como as do Polo Turístico Cabo Branco, são ainda mais sensíveis a esses dois vetores de impacto. A complexidade logística desses canteiros, assim como a interdependência entre etapas, por exemplo, a necessidade de concluir drenagens antes da instalação de estruturas definitivas, faz com que qualquer atraso em uma frente reverta em ajustes em outras, ampliando o efeito no cronograma global.
Essa combinação de fato técnico e fatores conjunturais gerou a necessidade de revisão de cronogramas dos projetos/obras em andamento. Ainda que essas mudanças de agenda possam parecer retrocessos isolados, elas expressam um movimento de aprendizado operacional e adaptação às condições climáticas e de mercado que a própria cidade está atravessando em seu processo de consolidação turística.
Para João Pessoa, esse momento representa um duplo alinhamento: por um lado, desafios de execução que exigem atenção à coordenação técnica e qualificação de mão de obra; por outro, uma oportunidade de fortalecer cadeias produtivas locais, ampliar a oferta de trabalho especializado e ajustar a oferta de infraestrutura à realidade de um destino que recebe cada vez mais visitantes. Ao transformar obstáculos em subsídios para um planejamento urbano mais resiliente, a capital paraibana pode consolidar um modelo de desenvolvimento turístico que combine ambição de longo prazo com capacidade de resposta a variáveis externas.
Nesse sentido, os ajustes de cronograma, longe de se configurarem como entraves definitivos, aparecem como reflexo de um processo evolutivo de uma cidade que equilibra crescimento econômico e qualificação institucional, apta a ajustar sua logística de obras e ações públicas à medida que se firma como um dos destinos preferenciais do litoral brasileiro.