
Pesquisadores iniciaram um estudo para investigar o impacto dos sapos-cururu (Rhinella diptycha) na fauna de Fernando de Noronha. Esta espécie invasora foi introduzida há mais de cem anos na ilha com a finalidade de controlar pragas, mas não obteve sucesso no controle e acabou se disseminando pela área. Atualmente, especialistas estão realizando análises para compreender melhor as consequências dessa introdução na biodiversidade local.
Paralelamente, uma outra pesquisa está examinando deformidades observadas nos sapos da ilha. Em Fernando de Noronha, cerca de 50% desses animais apresentam alterações físicas, número bastante superior ao encontrado em outras regiões do mundo, onde a taxa fica em torno de 10%. Para o estudo, foram coletados cerca de 250 sapos a fim de analisar suas características e hábitos alimentares.
Especialistas ressaltam que esses sapos podem consumir espécies endêmicas, aquelas exclusivas da ilha, como a mabuya, além de caranguejos, o que pode causar desequilíbrios ambientais. A pesquisadora Camila Moser, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destacou: “Queremos entender do que esses sapos se alimentam. Já sabemos que eles comem mabuya, que é endêmica, e caranguejos. Queremos avaliar o impacto disso na fauna local”. Estima-se que a análise do conteúdo estomacal levará aproximadamente seis meses para ser concluída.
Além disso, a equipe pretende comparar os dados de Fernando de Noronha com informações de sapos encontrados no Caribe, onde existem espécies nativas de anfíbios. “Fernando de Noronha não tinha anfíbios. No Caribe, há espécies nativas de anfíbios, e queremos comparar os cenários. Os sapos causam problemas em todas as ilhas”, explicou a pesquisadora. A alimentação dos sapos saudáveis também será confrontada com a dos sapos que apresentam deformidades.
Quanto às deformações, a bióloga Mariana Carvalho, igualmente da Unicamp, está realizando sua segunda visita à ilha para aprofundar os estudos. Coletas realizadas no ano anterior indicaram a presença de metais pesados na água, sedimentos e no sangue dos sapos, um fator inesperado que pode estar afetando negativamente a saúde desses animais. Atualmente, são coletadas amostras de fígado e rim para avaliar possíveis danos a esses órgãos. “Com a análise, vamos saber se os órgãos estão comprometidos. Ainda não é possível identificar a causa das deformidades”, afirmou.
Para divulgar a pesquisa, os cientistas criaram um desenho animado que utiliza uma paródia da música “De repente Califórnia”, contando de maneira bem-humorada a situação dos sapos na ilha. Os resultados dos estudos serão apresentados ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que poderá utilizar as informações para futuras ações de conservação ambiental.