
Um estudo realizado pela Universidade de Zurique, na Suíça, divulgado na revista científica Psychological Science, aponta que o trabalho é a principal fonte de estresse nas grandes decisões da vida adulta. A pesquisa envolveu mais de 4 mil participantes suíços, entre 15 e 79 anos, e foi conduzida antes e durante a pandemia de COVID-19, com o objetivo de identificar quais decisões cotidianas são consideradas as mais emocionalmente desgastantes e arriscadas.
Segundo os resultados, 32% das decisões avaliadas como as mais estressantes estão relacionadas ao trabalho. Estar no topo do ranking, aceitar um novo emprego foi a escolha mais citada, seguido pela decisão de pedir demissão sem outra vaga garantida. Além disso, outras escolhas que causam tensão incluem decidir sobre investimentos financeiros, dirigir, tornar-se autônomo e comprar uma casa. O estudo também destacou outras situações estressantes como fazer cirurgia, casar-se, tomar vacina e mudar para outro país.
Especialistas explicam que o trabalho concentra diversas dimensões cruciais para a vida, como renda, identidade, pertencimento social, rotina e sensação de utilidade, elevando o nível de vulnerabilidade. O psicólogo Paulo Cesar Porto Martins, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, destaca que isso faz com que as decisões relacionadas à carreira sejam vistas como riscos sistêmicos capazes de impactar várias áreas simultaneamente. Por exemplo, aceitar uma nova vaga pode envolver incertezas sobre o ambiente, insegurança e mudança na identidade profissional, aumentando o estresse e a ansiedade.
Do ponto de vista biológico, o psiquiatra Daniel Oliva, do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que decisões importantes acionam no cérebro o mecanismo de sobrevivência, ativando hormônios como noradrenalina e cortisol. Esses hormônios estimulam o sistema de luta ou fuga, causando aceleração do coração, respiração curta e aumento do estado de alerta, o que pode levar a decisões impulsivas ou paralisia diante da escolha. Quando a pessoa demora a decidir, o planejamento mental continua em alerta, podendo resultar em ansiedade, fadiga e insônia.
O estudo também mostra diferenças na percepção entre gêneros: mulheres tendem a considerar decisões sobre formação acadêmica e casamento mais estressantes, enquanto homens focam mais em cirurgias, viagens e adoção de novas tecnologias, principalmente acima dos 60 anos. Essas diferenças refletem expectativas culturais e papéis sociais que influenciam como homens e mulheres lidam com riscos.
Para enfrentar o estresse nas decisões, especialistas recomendam adotar estratégias como tomar decisões após uma boa noite de sono, evitar excesso de cafeína e álcool, dividir grandes decisões em pequenas etapas, avaliar cenários realistas e discutir escolhas com pessoas de confiança. Também sugerem estabelecer prazos para evitar ruminação excessiva e manter uma rotina saudável com atividade física e pausas. Caso o estresse cause prejuízos na rotina, sono ou capacidade decisória, é importante buscar apoio profissional em saúde mental.