
Uma pesquisa realizada pelo Unicef revela que aspectos sociais, econômicos e culturais têm impulsionado o consumo de alimentos ultraprocessados entre crianças que vivem em áreas urbanas no Brasil. O estudo envolveu cerca de 600 famílias residentes em bairros de Belém (PA), Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ), evidenciando a presença significativa desses produtos na rotina alimentar infantil.
Apesar de 84% dos participantes demonstrarem preocupação em oferecer uma alimentação saudável às crianças, os alimentos ultraprocessados aparecem em metade dos lares no lanche das crianças, e em um quarto das casas, fazem parte até mesmo do café da manhã. Entre os itens mais consumidos estão iogurtes com sabor, embutidos, biscoitos recheados, refrigerantes e macarrão instantâneo, alimentos que possuem alto teor de aditivos químicos e baixo valor nutricional.
O estudo destaca que a sobrecarga de responsabilidades nas mães é um dos principais fatores que levam à escolha desses produtos. Em 87% das residências, as mães são as responsáveis pela compra dos alimentos, e em 82%, pelo preparo das refeições. A rotina intensa e o fato de muitas trabalharem fora tornam o consumo de ultraprocessados uma opção prática e rápida para lidar com as demandas diárias.
Além disso, o custo desses produtos também influencia a decisão das famílias. Para 67% delas, itens como refrigerantes, salgadinhos e sucos industrializados são considerados baratos, enquanto alimentos frescos, como legumes e verduras (68%), frutas (76%) e carnes (94%), são vistos como caros. Um aspecto afetivo também foi identificado: muitos pais associam esses alimentos à ideia de uma infância mais prazerosa, por não terem tido acesso a eles quando crianças.
Outro ponto relevante é a desinformação sobre a saúde desses alimentos. Parte dos entrevistados considera alguns ultraprocessados, como iogurtes com sabor e nuggets preparados na airfryer, como opções saudáveis. A rotulagem frontal dos produtos apresenta limitações, já que 26% dos participantes não compreendem os avisos e 55% afirmam não prestar atenção neles. Esse consumo frequente está ligado a diversos riscos para a saúde, como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, depressão e até câncer.
Como medidas recomendadas, o estudo sugere o fortalecimento da regulação da publicidade infantil, a ampliação das escolas em tempo integral, o incentivo à educação alimentar e o apoio a iniciativas comunitárias que promovam o acesso a alimentos saudáveis. As escolas, principalmente nas comunidades com maiores dificuldades econômicas, também são apontadas como importantes aliadas na promoção de hábitos alimentares mais equilibrados.