
Nascido há mais de um século nas ruas do Recife, o frevo segue como um dos maiores símbolos do Carnaval pernambucano. Vibrante, acelerado e carregado de identidade cultural, o gênero mantém sua força ao longo do tempo justamente por saber equilibrar tradição e inovação, incorporando novas sonoridades e dialogando com diferentes gerações de artistas.
Essa renovação é visível na trajetória de músicos pernambucanos que preservam a memória afetiva do frevo, mas também exploram caminhos contemporâneos. A cantora Kira Aderne, natural de Caruaru e vocalista da banda Diablo Angel, é um exemplo desse movimento. Após consolidar carreira voltada ao rock e ao pop, ela lança em 2026 seu primeiro frevo, marcando sua estreia no Carnaval com uma faixa gravada no estúdio do produtor Júnior Cap, no Recife.
Para o produtor, a experimentação sempre esteve no DNA do gênero. Segundo ele, o frevo nunca foi estático e sempre abriu espaço para novas leituras e interpretações, o que mantém vivo o interesse por projetos autorais e inovadores.
O jornalista e crítico musical José Teles contextualiza essa dinâmica histórica ao lembrar que o frevo alternou momentos de maior ousadia com períodos mais conservadores, especialmente nas décadas de 1960 e 1970. A partir do centenário do ritmo, no entanto, o gênero entrou novamente em uma fase mais radical de inovação, reafirmando sua capacidade de reinvenção.
Outro exemplo dessa nova geração é a Orquestra Malassombro, criada em 2018. O grupo reúne músicos com trajetórias solo e aposta em repertório autoral, acrescentando instrumentos como bandolim e pandeiro à formação tradicional das orquestras de frevo. Para a cantora Isadora Melo, integrante da orquestra, o trabalho do grupo busca equilibrar a reverência aos mestres pernambucanos com a expressão das vivências atuais, traduzindo o frevo do presente.
A abertura do gênero a novas influências também é destacada pelo percussionista Júnior Teles, que ressalta o caráter plural do frevo e a versatilidade do pandeiro como instrumento capaz de expandir as possibilidades rítmicas da música carnavalesca.
Já a cantora, compositora e passista Laís Senna reforça que o frevo de rua é a base da sua identidade artística. Em 2025, ela lançou seu primeiro EP inspirado na experiência como foliã, demonstrando que inovar dentro de um gênero centenário exige pesquisa, dedicação e respeito à tradição. Para ela, cantar, tocar e dançar frevo é um desafio técnico e emocional, mas também um ato de resistência cultural.
Assim, entre metais vibrantes, passos coreografados e novas experimentações sonoras, o frevo segue pulsando nas ladeiras e palcos de Pernambuco. Ao se reinventar sem perder sua essência, o ritmo reafirma seu lugar como patrimônio cultural vivo, capaz de atravessar gerações e continuar embalando o Carnaval com a mesma energia que o consagrou há mais de 100 anos.