
O frevo “Olinda nº 2”, eternizado pelo verso “Olinda! Quero cantar a ti esta canção”, ecoa com força renovada a cada carnaval pelas ladeiras seculares de Olinda. Mais do que uma simples composição carnavalesca, a música tornou-se um verdadeiro símbolo afetivo da cidade, confundindo-se muitas vezes com o próprio hino oficial do município. Criada há cerca de sete décadas, a canção ultrapassou os limites do Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda e consolidou-se como patrimônio sentimental de gerações de foliões que encontram, em seus versos, a tradução poética da alegria olindense.
Fundado em 12 de fevereiro de 1952, o Elefante celebrou em 2026 seus 74 anos de existência, reafirmando-se como uma das mais emblemáticas agremiações do carnaval pernambucano. Reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2020, o clube carrega em seu estandarte as cores vermelho e branco, que simbolizam resistência, tradição e memória coletiva. O vermelho representa a paixão vibrante do frevo, enquanto o branco evoca a paz e a continuidade cultural que atravessa décadas.
O hino do Elefante, composto por Clóvis Vieira e Clídio Nigro, tornou-se um dos frevos mais executados do estado. Dados do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) indicam que a música figurou como a sexta mais tocada no carnaval pernambucano entre 2014 e 2024, evidenciando sua permanência e relevância no repertório festivo. Essa presença constante demonstra não apenas sua popularidade, mas também a força da tradição que ela representa.
Segundo o historiador Luiz Vinícius Maciel, coordenador de Memória do Paço do Frevo, a canção é reconhecida nacionalmente e ajuda a fortalecer a mística que envolve o clube. Para ele, a letra sintetiza a celebração do carnaval de Olinda, exaltando suas ladeiras, seus casarões coloniais e o espírito vibrante do povo pernambucano. O frevo, nesse contexto, atua como elemento de identidade cultural, reafirmando o papel expressivo do Elefante na festa popular.
A origem do clube remonta a um episódio curioso e quase folclórico. Em 1952, jovens do bairro Quatro Cantos furtaram um pequeno elefante de biscuit, objeto que acabaria inspirando o nome da troça carnavalesca que, com o passar dos anos, se transformaria em um dos mais tradicionais clubes da cidade. Inicialmente, o grupo desfilava de maneira simples, adotando as cores vermelho e branco do Bonfim Atlético Clube. Com o crescimento da agremiação, vieram os investimentos em fantasias mais elaboradas, carros alegóricos e temas organizados, alinhando o Elefante ao perfil dos grandes clubes carnavalescos de Pernambuco.
A gestão atual, iniciada em 2017, tem buscado equilibrar a preservação das tradições históricas com a necessidade de dialogar com as novas gerações. O uso estratégico das redes sociais, a modernização da identidade visual e a ampliação das ações culturais ao longo do ano são exemplos desse movimento de renovação. Ao mesmo tempo, mantém-se o compromisso com os desfiles tradicionais, o repertório clássico de frevos e a valorização dos antigos foliões que ajudaram a construir a trajetória do clube.
Em 2026, para celebrar seus 74 anos, o Elefante realizou dois desfiles especiais: um na data oficial do aniversário e outro no domingo de carnaval. O tema escolhido, “Veraneio”, resgatou a memória de Olinda como destino tradicional de famílias que buscavam descanso e cura durante as temporadas de férias. A proposta reforçou a identidade histórica da cidade, conectando passado e presente em uma narrativa visual e musical que emocionou moradores e visitantes.
A histórica rivalidade com a Pitombeira dos Quatro Cantos também faz parte dessa trajetória. Marcada por cores distintas e pela paixão intensa de seus foliões, a disputa, que no passado chegou a ser acirrada, hoje se manifesta de forma simbólica e respeitosa. Em vez de conflitos, prevalece a celebração conjunta da cultura pernambucana, demonstrando maturidade e valorização das tradições que fazem do carnaval de Olinda um dos mais autênticos do Brasil.
Assim, o Elefante de Olinda não é apenas um clube carnavalesco, mas um guardião da memória cultural e afetiva da cidade. Seu hino, cantado em uníssono pelas ladeiras históricas, reafirma a cada ano que o frevo é mais do que música: é identidade, pertencimento e celebração da vida.