
A tradicional festa de 94 anos do Homem da Meia-Noite, um dos maiores símbolos do Carnaval de Olinda e do Brasil, terá um momento especialmente marcante com a entrega oficial da roupa que será utilizada no Carnaval de 2026. O evento acontece na segunda-feira (2), no Sítio Histórico de Olinda, e integra a programação comemorativa do aniversário do calunga, reafirmando a força da cultura popular, da ancestralidade e das tradições afro-brasileiras.
A celebração contará com um cortejo cultural animado pelos tambores das nações de maracatu, reforçando o elo histórico entre o Homem da Meia-Noite e as expressões culturais de matriz africana. A iniciativa foi apresentada em coletiva de imprensa realizada na sede do clube, onde dirigentes, artistas e representantes das nações destacaram a importância simbólica e histórica do momento para a cidade e para o carnaval pernambucano.
Aberta ao público, a programação tem início às 19h, com a concentração e saída das nações de maracatu da Rua Treze de Maio, em frente à casa da estilista Haia Marak, responsável pela confecção do fraque que vestirá o Homem da Meia-Noite no próximo carnaval. A partir dali, o cortejo seguirá pelas ladeiras da Cidade Alta, passando pelo Largo do Bonsucesso, até chegar à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, espaço de profunda relevância histórica, religiosa e cultural para a população negra de Olinda.
No Rosário, as nações de maracatu se encontram oficialmente com o Homem da Meia-Noite, que passa a integrar o cortejo, seguindo até a sede do clube carnavalesco. No local, será realizado o tradicional corte de um bolo gigante, celebrando os 94 anos do calunga. A cerimônia será embalada pela Orquestra do Maestro Carlos, responsável pela execução do clássico “Parabéns”, com participação especial dos passistas da Cia Brasil por Dança, unindo música, dança e tradição em um espetáculo simbólico.
Ao todo, dez nações de maracatu participam do desfile comemorativo:
Maracatu Nação Pernambuco, Estrela Brilhante de Igarassu, Leão Coroado, Nação Tigre, Nação Camaleão, Nação Maracambuco, Nação Badia, Nação Luanda, Estrela Brilhante de Olinda e Sol Brilhante de Olinda. A presença dessas nações reforça o caráter coletivo e ancestral da celebração, além de evidenciar a relevância do Homem da Meia-Noite como guardião das tradições afro-pernambucanas.
Um dos momentos inéditos da festa será o transporte da roupa pela Rural de Roger de Renor, que, pela primeira vez, conduzirá o fraque pelas ruas do Sítio Histórico, saindo da casa de Haia Marak. A estilista, que há 15 anos representa a orixá Oxum no Maracatu Nação Badia, falou com emoção sobre a responsabilidade e o significado de assinar a roupa do calunga, destacando a conexão espiritual, artística e ancestral envolvida no processo criativo.
O fraque do Homem da Meia-Noite será guardado em local ainda não revelado, mantendo o mistério e o encanto que cercam a tradição, até sua apresentação oficial no desfile do Sábado de Zé Pereira, quando o calunga sai pontualmente à meia-noite, abrindo oficialmente o Carnaval de Olinda.
O presidente do Clube Carnavalesco de Alegoria e Crítica O Homem da Meia-Noite, Luiz Adolpho, destacou o profundo simbolismo da roupa do calunga. Segundo ele, o figurino não é apenas estético, mas carrega uma mensagem poderosa: “a roupa fala”, transmitindo sentidos, memórias e sentimentos no momento em que é exibida ao público, exatamente à meia-noite.
Para o Carnaval de 2026, o clube escolheu o tema “Tambores Silenciosos”, que evidencia o papel histórico e social do Homem da Meia-Noite. Mais do que promover festa e alegria, o clube assume uma missão de cuidado, reflexão e resistência, abordando temas sensíveis e relevantes para a sociedade. Luiz Adolpho explicou que o silêncio presente no tema representa uma forma de resistência e afirmação da ancestralidade, simbolizando a voz de um povo que, ao longo da história, foi silenciado, mas que segue se expressando por meio da arte, da cultura e do carnaval.
No Carnaval de 2024, o Homem da Meia-Noite já havia emocionado o público ao prestar homenagem a importantes ícones da cultura popular e da ancestralidade afro-brasileira, reunindo maracatu, frevo e rabeca em um desfile marcante pelas ladeiras de Olinda. A celebração dos 94 anos reafirma essa trajetória de resistência cultural, memória e identidade, consolidando o Homem da Meia-Noite como um dos maiores símbolos do carnaval e da cultura pernambucana.