
O Homem da Meia-Noite, um dos mais emblemáticos símbolos do Carnaval de Olinda, celebrou seus 94 anos de história nesta segunda-feira (2) com uma grande festa marcada por tradição, emoção e reverência à cultura afro-brasileira. A comemoração contou com um cortejo de maracatu, apresentações musicais e a entrega simbólica da roupa que o calunga usará no desfile oficial deste ano, que acontece pontualmente à 0h do Sábado de Zé Pereira, no dia 14 de fevereiro, abrindo oficialmente o Carnaval olindense.
A vestimenta de 2026 foi conduzida em cortejo pela Rural, comandada por Roger de Renor, idealizador do projeto cultural Som na Rural, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife. Mantendo o mistério que envolve a tradição, o fraque do calunga seguirá guardado em local secreto até o momento solene de sua revelação, reforçando o caráter simbólico e ritualístico que envolve o desfile do Homem da Meia-Noite.
A criação da roupa ficou sob responsabilidade da estilista e artista plástica olindense Haia Marak, figura de forte atuação na cena cultural pernambucana. Além de estilista, Haia possui uma trajetória consolidada como cantora, desfilante e líder do Maracatu Nação Badia, que comanda há 15 anos durante o Carnaval de Olinda. A peça foi concebida como uma homenagem à orixá Oxum, refletindo elementos de ancestralidade, espiritualidade e identidade afro-brasileira. Para confeccionar o traje, Haia dedicou cerca de dois meses de trabalho intenso, com jornadas diárias de aproximadamente nove horas, cuidando minuciosamente de cada detalhe. Emocionada, a artista destacou que entregar a roupa no aniversário do Homem da Meia-Noite representa a realização de um sonho, marcado por gratidão, honra e profundo orgulho.
O desfile deste ano terá como tema “Tambores Silenciosos”, uma poderosa homenagem à ancestralidade afro-brasileira e à resistência cultural dos maracatus de baque virado. O tema presta tributo a cinco importantes nomes e coletivos da cultura pernambucana: Mãe Beth de Oxum, Siba, Maciel Salú, o Grupo Bongar e o Maracatu Nação Pernambuco, reconhecendo suas contribuições para a preservação e difusão das tradições populares do estado.
As celebrações começaram às 19h, quando uma orquestra de frevo emocionou o público ao executar o tradicional “Parabéns” para o calunga, em um momento simbólico que marcou o início da festa. Em seguida, teve início o grande cortejo, reunindo diversas nações de maracatu, entre elas: Maracatu Nação Pernambuco, Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu, Maracatu Leão Coroado, Nação Tigre, Nação Camaleão, Nação Maracambuco, Nação Badia, Nação Luanda, Maracatu Estrela Brilhante de Olinda e Maracatu Sol Brilhante de Olinda.
O grupo percorreu as ladeiras históricas de Olinda até o Largo do Bonsucesso, subindo em seguida até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, espaço de forte significado histórico e religioso para a população negra. Foi nesse local que os maracatus se encontraram com o calunga, em um momento marcado por respeito, espiritualidade e celebração coletiva. Após o encontro, todos desceram juntos em cortejo até a sede do Homem da Meia-Noite, onde ocorreu o tradicional corte de um bolo gigante, ao som da orquestra do Maestro Carlos, encerrando a noite festiva com alegria e emoção.
A comemoração dos 94 anos do Homem da Meia-Noite reafirma a força do Carnaval pernambucano, destacando a importância da preservação das tradições populares e da valorização das expressões culturais afro-brasileiras. Mais do que uma festa, o evento celebrou a memória, a resistência e o legado ancestral que fazem do calunga um dos maiores símbolos da identidade cultural de Olinda e de Pernambuco.