
O Nordeste brasileiro concentra R$ 108 bilhões em projetos de infraestrutura com valores definidos, conforme o Livro Azul da Infraestrutura 2025, publicação anual da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB). O levantamento inclui concessões e parcerias público-privadas (PPPs) em andamento ou em fase de estruturação nos nove estados da região, abrangendo setores como saneamento básico, transportes, energia, saúde, habitação e turismo. Parte dos contratos já foi assinada, enquanto outros ainda estão em processo de edital ou modelagem. O documento, divulgado em novembro de 2025, é uma “fotografia” atualizada mensalmente da plataforma eletrônica de projetos da ABDIB.
Com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 1,665 trilhão em 2024, equivalendo a 14,2% do PIB nacional, o Nordeste possui uma população de 57,1 milhões de habitantes, representando 26,9% do total do país, e um PIB per capita de R$ 29.168. A economia da região é majoritariamente impulsionada pelo setor de serviços, responsável por 75% do PIB, seguido pela indústria com 18,5% e agropecuária com 6,5%. Os investimentos estaduais no Nordeste chegaram a R$ 30,4 bilhões no auge recente, comparados a R$ 8,8 bilhões em 2017.
A malha rodoviária nordestina possui 445.404 km, dentro de um total nacional de 1.720.701 km. Em 2024, apenas 31,8% das rodovias da região foram avaliadas como boas ou ótimas na pesquisa CNT de Rodovias, inferior aos 42,5% da média nacional e até pior que os índices de 2005. O setor de saneamento domina o portfólio, com R$ 91,7 bilhões em projetos distribuídos por oito estados, impulsionados pela Lei nº 14.026/2020, que estabeleceu metas para universalização do abastecimento de água em 99% e do esgotamento sanitário em 90% da população urbana até 2033 ou 2040. Todos os projetos nordestinos aderem a esses prazos.
Nacionalmente, os investimentos em saneamento cresceram 35,7% em termos reais em 2025, resultado das concessões e PPPs. O déficit de investimento no setor caiu de 0,18% do PIB em 2024 para 0,09% em 2025, mas para eliminá-lo totalmente seriam necessários R$ 56,3 bilhões anuais por dez anos. O investimento realizado em 2025 foi de R$ 44,5 bilhões e a universalização do saneamento é prevista para a segunda metade da década de 2030, superando os prazos legais. O Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU) de 2024 mostra disparidades entre os estados nordestinos, com Bahia na liderança, seguida por Sergipe, Pernambuco, Piauí e Ceará, Maranhão e Paraíba.
Os maiores projetos da região estão em Pernambuco e Maranhão. A concessão dos serviços da Compesa abrange 185 municípios pernambucanos e 9,2 milhões de habitantes, com investimento estimado em R$ 18,397 bilhões, o maior valor unitário com leilão realizado. No Maranhão, a concessão de água e esgoto para 214 dos 217 municípios, atingindo 6,2 milhões de pessoas, prevê R$ 18,7 bilhões, porém ainda sem contrato definido ou data para leilão.
O Piauí possui a concessão plena mais recente, com a Águas do Piauí SPE (AEGEA) investindo R$ 9,6 bilhões. No Ceará, dois projetos somam R$ 13,77 bilhões: PPP de esgotamento sanitário na Região Metropolitana de Fortaleza e Cariri, beneficiando mais de 4 milhões, e concessão de esgoto em 128 municípios sem vencedor ainda. Sergipe fechou contrato com a Iguá Saneamento para universalização em 74 municípios, com investimento de R$ 6,313 bilhões.
No setor de transportes, os projetos somam R$ 13,1 bilhões. Destaca-se o Porto Indústria Verde, no Rio Grande do Norte, projeto de R$ 5 bilhões focado em economia de baixo carbono e energias renováveis, sem modalidade contratual definida. Na rodovia, o Piauí lidera com a concessão Transcerrados, R$ 2,432 bilhões para 580 km de estradas ligando polos produtivos. No Ceará, o Arco Metropolitano de Fortaleza, no valor de R$ 2,2 bilhões, ainda não definiu vencedor; em Pernambuco, o Arco Metropolitano do Recife, de R$ 1,036 bilhão, está em modelagem.
O transporte urbano em Pernambuco está mais avançado, com 26 terminais integrados e 44 estações de BRT na Região Metropolitana do Recife, adquiridos pelo Grupo Socicam por R$ 113 milhões. Também houve leilões para mais de 7 mil pontos de embarque e desembarque, com lotes de R$ 135 milhões e R$ 215 milhões, vencidos pela Kallas Empreendimentos. No segmento aéreo, o Aeroporto de Fernando de Noronha (R$ 66 milhões) já tem contrato com a AENA, enquanto o Aeroporto de Parnaíba/PI (R$ 91,8 milhões) está em concessão administrativa.
Projetos de energia renovável e eficiência energética chegam a R$ 566 milhões, com pelo menos um projeto em todos os nove estados nordestinos, majoritariamente PPPs para geração fotovoltaica distribuída em prédios públicos. Pernambuco lidera com a Usina de Autoprodução de Energia em 52 unidades de alta tensão, valorizada em R$ 182 milhões e vencida pelo Grupo Enerfin do Brasil. O Piauí contratou quatro miniusinas fotovoltaicas por R$ 68,4 milhões; Sergipe estrutura uma PPP de R$ 58 milhões para geração distribuída em 850 unidades consumidoras.
O Livro Azul também contempla projetos nas áreas de saúde, habitação e turismo. Em Sergipe, a PPP para o Hospital do Câncer, orçada em R$ 168 milhões, prevê gestão de 135 leitos para 75 municípios, com acesso pelo SUS. Pernambuco investe R$ 133,9 milhões em PPP de habitação social no Recife, abrangendo quatro empreendimentos para baixa renda. Em Salvador, grande parte dos projetos inclui saneamento municipal (R$ 6,9 bilhões), habitação no Pelourinho (R$ 74 milhões), Centro Cultural Afro-Atlântico (R$ 105 milhões) e Estúdios Salvador (R$ 103 milhões), PPP para produção cinematográfica.
No Ceará, destaca-se o projeto de dessalinização de água do mar em Fortaleza, no valor de R$ 526,3 milhões, com concessionária Águas do Brasil, fundamental para segurança hídrica diante das secas. O Piauí finalizou concessões do Bioparque Zoobotânico de Teresina (R$ 43,8 milhões) e do Parque de Exposições Dirceu Arcoverde (R$ 37,5 milhões), que movimentou R$ 35 milhões em negócios agropecuários.
Vários projetos do portfólio nordestino ainda aguardam datas para leilão. No Maranhão, não há data para a concessão de água e esgoto; na Paraíba, o projeto Paraíba Saneada de R$ 5,6 bilhões envolverá 93 municípios em dois blocos. O Rio Grande do Norte prevê leilão em 2026 para PPP de esgotamento sanitário em 48 municípios via CAERN, que beneficiará quase 2 milhões de pessoas.
O progresso desses projetos depende da conclusão dos estudos de viabilidade e da capacidade dos estados para estruturar os editais dentro dos prazos estabelecidos pelo marco legal do saneamento. O déficit de investimentos em transportes e logística, estimado em 1,65% do PIB, permanece o principal desafio estrutural, devido à dependência de recursos públicos combinados com capital privado e à complexidade da coordenação entre os distintos entes federativos da região.