
A diferença aparentemente pequena — cerca de 50 milissegundos entre processar dados em Fortaleza ou São Paulo, podendo ultrapassar 100 ms quando o processamento ocorre fora do país — está provocando uma mudança estratégica importante no mapa digital brasileiro. Essa variação de latência, crucial para aplicações modernas, está reposicionando o Nordeste como um polo central na infraestrutura de inteligência artificial (IA).
Segundo Augusto Salomon, presidente da Cirion Technologies no Brasil, aplicações que exigem respostas em tempo real — como inferência em IA, streaming e distribuição de conteúdo — dependem diretamente de baixa latência. Nesse contexto, processar dados próximo aos pontos de chegada de cabos submarinos se torna uma vantagem competitiva decisiva, evitando o trajeto mais longo até o Sudeste.
Esse movimento fortalece cidades como Fortaleza, que já se consolidou como um dos principais hubs de conectividade internacional do país. A atuação da Cirion no sistema SAC — uma extensa rede com mais de 105 mil km de fibra óptica e conexão com múltiplos cabos submarinos — posiciona a capital cearense como um nó estratégico para o tráfego de dados global.
Além da conectividade, o Nordeste reúne outras vantagens estruturais: abundância de energia renovável, localização geográfica privilegiada (mais próxima da Europa e América do Norte) e crescente interesse de grandes empresas de tecnologia. Um exemplo é o TikTok, que firmou parceria com a Casa dos Ventos para construir seu primeiro data center na América Latina no Porto do Pecém — projeto que deve se tornar o maior do país em capacidade energética.
Outras gigantes como Amazon Web Services, Microsoft e Google também observam a região com interesse, impulsionadas principalmente pela combinação de energia limpa e proximidade com infraestrutura de cabos submarinos.
Para dar suporte a esse crescimento, a Cirion opera o DC Connect, plataforma que interliga dezenas de data centers no Brasil e na América Latina, criando uma rede distribuída e resiliente. Essa necessidade de resiliência ficou evidente em 2023, quando um rompimento parcial no sistema SAC, entre Fortaleza e o Rio de Janeiro, exigiu a ativação de rotas alternativas para manter a continuidade do tráfego de dados.
Como resposta, a empresa investe em redundância com projetos como o SAC-2, além da diversificação geográfica dos data centers. Esse movimento reflete uma tendência maior: a transição de um modelo concentrado para uma rede distribuída de infraestrutura digital, com múltiplos polos interconectados.
Mesmo com a previsão da consultoria Oliver Wyman de que São Paulo continuará concentrando cerca de 80% da capacidade de data centers do país, o avanço de outras regiões é inevitável. Cidades como Fortaleza, Rio de Janeiro, Curitiba e até centros urbanos do interior ganham relevância nesse novo desenho.
No campo regulatório, o setor acompanha com atenção o debate sobre o ReData, que pode influenciar novos investimentos. Ainda assim, empresas como a Cirion mantêm seus planos de expansão independentemente da aprovação, apostando nas vantagens estruturais do Brasil.
Apesar da concorrência de países como Chile, México, Colômbia e Argentina — que já avançaram em incentivos fiscais — o Brasil ainda se destaca por fatores como demanda interna robusta, disponibilidade de talentos, base industrial e infraestrutura em expansão.
No fim, o que está em jogo não é apenas onde ficam os data centers, mas como a geografia digital do país está sendo redesenhada. E, nesse novo mapa, o Nordeste deixa de ser apenas um ponto de passagem de dados para se tornar um protagonista na era da inteligência artificial.