
Ainda deitado sobre a Ponte Duarte Coelho, no coração do Centro do Recife, o Galo gigante, com mais de 30 metros de altura, já se tornou um espetáculo à parte e vem despertando a atenção de foliões, turistas e curiosos que acompanham de perto cada etapa de sua montagem. Mesmo antes de ser erguida, a escultura — um dos maiores símbolos do Carnaval pernambucano — atrai olhares, registros fotográficos e uma atmosfera de expectativa que anuncia a chegada da maior festa popular do estado.
A estrutura deve ser oficialmente levantada na próxima quarta-feira, 11 de fevereiro, quando passará a dominar a paisagem do centro da cidade e reafirmar seu papel como guardião simbólico do Galo da Madrugada, maior bloco carnavalesco do mundo. Antes disso, um momento inédito e carregado de emoção está previsto para acontecer na terça-feira, dia 10, conforme explica o artista plástico Leopoldo Nóbrega, responsável pelo design da escultura. Pela primeira vez, será realizado um cortejo especial, que levará um coração cenográfico até o Galo, elemento que será fixado no peito da estrutura.
O cortejo sairá do Convento de Santo Antônio, seguirá pela Rua do Imperador e terá como destino final a Ponte Duarte Coelho, marcando um capítulo histórico na montagem da escultura. A ação simboliza a ligação entre fé, cultura e carnaval, valores profundamente enraizados na identidade pernambucana.
A edição de 2026 do Galo gigante traz como tema “Galo Folião Fraterno”, uma homenagem ao arcebispo Dom Hélder Câmara (1909–1999), figura emblemática da história religiosa, social e política do Brasil, que esteve à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife entre 1964 e 1985. Reconhecido por sua atuação em defesa dos pobres, da justiça social e dos direitos humanos, Dom Hélder inspira o conceito de fraternidade que guia a estética e a mensagem da escultura deste ano.
Estruturalmente, o Galo mantém o mesmo formato utilizado nos últimos sete anos, mas ganha novos significados por meio da decoração e dos detalhes simbólicos. Predominam as cores azul, branco, verde e amarelo, além da tradicional crista vermelha, que se mantém como um dos elementos mais marcantes da figura. A ornamentação utiliza materiais reciclados, como tampas de garrafa PET e CDs, reforçando o compromisso com a sustentabilidade e a reutilização criativa de resíduos.
Entre os destaques visuais estão os leques na cauda, inspirados na estrutura do DNA humano, simbolizando vida, diversidade e conexão entre os povos, além das 27 estrelas posicionadas no pé da escultura, que representam os estados brasileiros, reforçando o caráter nacional do Galo da Madrugada. A tecnologia também marca presença, com partes da escultura produzidas por impressão 3D e o uso de robótica, demonstrando a integração entre tradição popular e inovação contemporânea.
Segundo Leopoldo Nóbrega, mais do que tecnologia ou grandiosidade, o Galo carrega um forte valor humano, ao transformar materiais descartados em arte e em mensagem. “Existe um afeto muito grande em cada detalhe, porque cada peça reutilizada ganha uma nova vida e um novo significado”, ressalta o artista.
Uma das novidades mais simbólicas desta edição é o coração luminoso, que será instalado no peito do Galo e representa o chamado “coração de Dom Hélder”. O elemento irá pulsar e brilhar durante o período carnavalesco, tornando-se um ponto de destaque visual e emocional da escultura, além de reforçar a mensagem de fraternidade e amor ao próximo.
A montagem do Galo gigante tem atraído um público diverso e expressivo. Foliões de diferentes idades acompanham o trabalho, observam atentamente cada detalhe e fazem questão de registrar o momento em fotos e vídeos. Entre eles está Severino da Paz, aposentado de 61 anos, que participou do primeiro desfile do Galo da Madrugada, em 1978. Ele relembra as transformações do carnaval ao longo das décadas e destaca sua admiração por Dom Hélder Câmara, figura que marcou sua trajetória de vida.
Também chama atenção a presença de novos foliões, como a contadora Jacilene Vieira da Silva, que irá ao desfile pela primeira vez e se mostrou encantada com a escultura de 2026, destacando a emoção de vivenciar esse momento histórico antes mesmo da folia começar.
Para as crianças, a montagem do Galo é um verdadeiro espetáculo. O pequeno Cristhian Diego, de 4 anos, acompanha a escultura pelo segundo ano consecutivo e observa tudo com curiosidade e entusiasmo. Já João Guilherme, de 3 anos, se encanta ao lado do pai, o encanador Edilson de Brito, apontando cada detalhe do Galo com olhos atentos e sorriso no rosto.
A expectativa e o fascínio em torno do Galo gigante reforçam sua importância como símbolo máximo do Carnaval do Recife. A escultura traduz, em forma e significado, a forte conexão entre tradição, inovação, sustentabilidade e emoção popular, mostrando que o Galo da Madrugada continua sendo muito mais do que um bloco: é um patrimônio afetivo e cultural do povo pernambucano.