
A Nestlé anunciou nesta quinta-feira (19) que deixará o segmento de sorvetes como parte de um amplo plano de reestruturação estratégica. A decisão marca uma mudança relevante no portfólio da multinacional suíça, que passará a concentrar seus esforços em quatro áreas consideradas prioritárias: café, alimentos, nutrição e produtos para pets. O objetivo central é recuperar a rentabilidade, fortalecer a geração de caixa e restabelecer a confiança dos investidores após um período de turbulências internas, pressão sobre margens e desafios operacionais.
Segundo o CEO Philipp Navratil, a companhia está em “negociações avançadas” com a Froneri para vender os ativos remanescentes da divisão de sorvetes. A Froneri foi criada em 2016 como uma joint venture entre a própria Nestlé e o fundo de private equity PAI Partners, consolidando uma parceria estratégica que já havia absorvido a maior parte das operações globais do segmento.
Agora, a Nestlé pretende se desfazer das operações restantes em países como Canadá, Chile, Peru, China, Malásia e Tailândia. No Brasil, a companhia ainda mantém marcas conhecidas no segmento, como LaFrutta e Mega, além de linhas especiais associadas a marcas tradicionais do grupo. A saída definitiva do negócio de sorvetes simboliza a decisão de abandonar categorias consideradas maduras ou com menor potencial de crescimento, direcionando recursos para áreas com maior margem e previsibilidade.
Desde que assumiu o comando da empresa, em setembro do ano passado, Navratil vem implementando uma agenda de cortes e simplificação estrutural. Foram anunciadas reduções de 16 mil postos de trabalho ao longo de 18 meses, além da continuidade da saída dos negócios de água engarrafada e de marcas convencionais de vitaminas e suplementos. A estratégia busca concentrar investimentos nas marcas mais fortes e em segmentos com maior valor agregado, apoiando-se em uma estrutura organizacional mais enxuta e eficiente.
O movimento da Nestlé ocorre em um contexto mais amplo no setor de bens de consumo, no qual grandes grupos vêm revisando seus portfólios para acelerar o crescimento e melhorar margens. Empresas como a Unilever e a Reckitt também têm promovido vendas de ativos e reestruturações com foco em categorias estratégicas.
Nos resultados financeiros divulgados no mesmo dia do anúncio, a Nestlé registrou crescimento orgânico de vendas de 3,5%, alcançando 89,5 bilhões de francos suíços (cerca de R$ 604,7 bilhões). Apesar do avanço na receita, o lucro operacional caiu 8,4%, totalizando 14,4 bilhões de francos suíços (R$ 97,3 bilhões). A retração foi atribuída à inflação nos custos de insumos, aumento de investimentos em marketing e impactos de tarifas comerciais.
A empresa também informou que já cumpriu 20% da meta de economia de 3 bilhões de francos suíços prevista até o fim de 2027, desempenho considerado adiantado em relação ao cronograma interno. Ainda assim, o cenário permanece desafiador.
Outro fator de pressão recente foi o recall global de fórmula infantil em cerca de 60 países, incluindo o Brasil, após a detecção da toxina cereulida — substância que pode provocar vômitos persistentes, diarreia e letargia. O impacto financeiro estimado é de 185 milhões de francos suíços (aproximadamente R$ 1,25 bilhão), sendo 75 milhões em perda de vendas e 110 milhões relacionados à baixa de estoques. Outras multinacionais do setor, como a Danone e a Lactalis, também enfrentaram episódios semelhantes, e o governo francês relatou três mortes infantis associadas ao consumo do produto contaminado.
Apesar de projetar crescimento orgânico entre 3% e 4% para 2026, parte dos analistas considera o plano apresentado ainda moderado diante das expectativas do mercado. Cedric Besnard, do Citi, avaliou que a reação inicial dos investidores pode ser positiva, mas indicou que mudanças mais profundas no portfólio podem ser necessárias. Já David Hayes, da Jefferies, classificou as medidas como “pouco dramáticas por enquanto”.
As ações da Nestlé chegaram a subir mais de 3% nas negociações em Zurique na manhã do anúncio, sinalizando uma recepção inicial favorável. No entanto, o desafio de longo prazo permanece: equilibrar crescimento sustentável, eficiência operacional e inovação em um ambiente global marcado por custos elevados, consumidores mais exigentes e pressão constante sobre margens.
O processo reforça uma tendência clara entre as grandes multinacionais do setor alimentício: priorizar negócios com maior retorno, fortalecer marcas líderes e simplificar estruturas para ganhar agilidade e competitividade em um cenário econômico cada vez mais complexo.