
O filme O Agente Secreto se destacou não apenas pela força de sua narrativa, mas também pelo rigor técnico e histórico empregado em sua produção. As filmagens ocorreram ao longo de 50 dias, distribuídos em cerca de dez semanas intensas de trabalho, com o objetivo de recriar de forma fiel o Brasil de 1977, período marcado pela ditadura militar. Cada detalhe foi cuidadosamente pensado para transportar o espectador àquele contexto histórico, reforçando a atmosfera de tensão, vigilância e repressão que permeia a trama.
Estrelado por Wagner Moura, o longa tem como principal cenário a cidade do Recife, onde foram utilizadas aproximadamente 30 locações diferentes. Além da capital pernambucana, a produção também contou com gravações em São Paulo e Brasília, ampliando o alcance geográfico da narrativa e reforçando a dimensão nacional da história. Para compor o ambiente da época, o filme mobilizou até 200 figurantes em determinadas cenas e utilizou 169 veículos antigos, dos quais 41 eram fuscas cedidos por colecionadores de diversas regiões do país, o que contribuiu de forma decisiva para a autenticidade visual da obra.
O cuidado estético foi reforçado pela escolha das câmeras Alexa 35, combinadas com lentes anamórficas, que proporcionaram um visual mais granulado e denso, remetendo à textura das produções cinematográficas dos anos 1970. Essa opção técnica ajudou a intensificar o realismo do filme e a sensação de imersão do público no período retratado. Produzido pela Vitrine Filmes, o longa também fez uso de cenários inteiramente montados em estúdio, como o antigo Aeroporto dos Guararapes, o Instituto de Medicina Legal e um posto de gasolina, recriados com precisão histórica.
Nas cenas externas, a equipe se dedicou a preservar e ressaltar elementos arquitetônicos da Recife dos anos 1970, promovendo ajustes para eliminar qualquer vestígio de modernidade. Placas, postes, sinalizações atuais e até bicicletas urbanas foram removidos ou adaptados para garantir a coerência temporal. Para viabilizar esse trabalho, instituições locais, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de órgãos dos governos estadual e municipal, colaboraram com o fechamento de ruas e a liberação de prédios históricos para as gravações.
A diretora de produção, Mariana Jacob, explicou que a proposta era apresentar a cidade de forma autêntica, respeitando sua identidade e história, sem interferências visuais que quebrassem a ilusão do período retratado. Recife, cidade natal do diretor Kleber Mendonça Filho, assume um papel central na narrativa, funcionando quase como um personagem do filme. Locais emblemáticos como o Parque Treze de Maio ganham destaque, inclusive com a referência ao folclórico personagem Perna Cabeluda, utilizado como metáfora para a violência e o medo instaurados pela ditadura. Outros cenários marcantes incluem o Cinema São Luiz, as pontes sobre o Rio Capibaribe e o tradicional Ginásio Pernambucano.
O reconhecimento do público e da crítica foi expressivo. O Agente Secreto ultrapassou a marca de 1 milhão de espectadores e conquistou 48 prêmios ao redor do mundo, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes. Mais recentemente, o filme alcançou um feito inédito para o cinema nacional ao vencer o prêmio de Melhor Filme Internacional no Critics Choice Awards, nos Estados Unidos, consolidando sua relevância no cenário cinematográfico global.
Entre os elementos simbólicos da produção, destaca-se o fusca amarelo utilizado pelo protagonista, pertencente a Antoliano Azevedo. O proprietário ressaltou o valor histórico do veículo e a importância de vê-lo integrado a uma obra que contribui para a preservação da memória cultural brasileira. Outro detalhe curioso foi o restaurante Chá Mate Brasília, que adaptou sua decoração para o filme e chegou a criar um sabor especial inspirado na história retratada na tela.
O sucesso de O Agente Secreto evidencia como o cuidado minucioso com cenários, figurinos, objetos e escolhas técnicas é fundamental para reviver um período marcante da história do Brasil. Ao transformar Recife em cenário e personagem central, o filme reafirma a força da memória histórica no cinema e destaca a cidade como um espaço simbólico essencial para a compreensão da narrativa e do contexto político e social da época.