
Viver em sociedade implica a existência de sistemas organizados que deveriam atuar como instrumentos de equilíbrio, proteção e garantia de direitos. Sistemas políticos, jurídicos, educacionais, administrativos e de saúde foram criados para servir ao cidadão e assegurar condições mínimas de dignidade. Contudo, a realidade comprova que, em muitos casos, esse papel se inverte, fazendo com que o sistema deixe de servir para dominar.
O cidadão contemporâneo convive diariamente com a sensação de submissão a um sistema excessivamente burocrático, caótico e distante das necessidades da maioria da população. Essa situação se agrava especialmente em contextos extremos, onde não há espaço para debates, apenas para a urgência da vida.
No setor da saúde, essa desigualdade se manifesta de modo cruel e triste. Vivenciar uma situação de saúde delicada mostra o quão perverso o sistema pode ser. Pacientes que não encontram respostas adequadas no sistema público buscam alternativas na saúde suplementar, mas frequentemente deparam-se com planos limitados, falta de cobertura em centros especializados, negativas constantes e dificultadores burocráticos, direcionando famílias ao atendimento particular, onde os custos se tornam imprevisíveis.
Neste cenário, o sistema impõe dilemas que jamais deveriam existir. O cidadão se vê obrigado a escolher entre o possível e o necessário, entre o que cabe no orçamento e o que é imprescindível. Procedimentos médicos complexos, internações longas, cirurgias de alta complexidade e o uso de órteses e próteses apresentam valores exorbitantes, distantes da realidade financeira da maioria dos brasileiros. Assim, o sistema permanece sem transparência, previsibilidade ou proteção, deixando para trás apenas angústia e contas a serem pagas.
No setor público, a precarização dos serviços essenciais, agravada pela má gestão e a corrupção estrutural, compromete o atendimento digno à população. Vivemos numa situação em que a indignação diante desses problemas é rara, como se o sistema fosse infalível e imutável. Recursos destinados a salvar vidas são desviados, políticas públicas são abandonadas e a desigualdade se amplia. A corrupção constitui não apenas um problema moral, mas uma tragédia social que retira das pessoas mais vulneráveis a chance mínima de cuidado e dignidade.
O sistema que corrompe também humilha, concentrando poder, normalizando absurdos e enfraquecendo o cidadão comum, que é condenado a uma existência repleta de incertezas quanto ao futuro. Essa dinâmica perversa mina a confiança nas instituições e destrói a esperança coletiva por um amanhã mais justo.
Não há soluções simples ou rápidas para problemas tão profundos. Superá-los demanda reformas estruturais, fortalecimento institucional, coragem, responsabilidade pública e uma sociedade menos tolerante às práticas nocivas. Até que isso aconteça, cabe ao cidadão manter seus valores, exercer vigilância cívica e resistir à naturalização da injustiça que aflige e mata tantas vidas diariamente. Até quando a sociedade suportará tanta ganância, desrespeito e descaso?
É fundamental afirmar que nenhum sistema é absoluto. Aqueles que se beneficiam da dor alheia, enriquecem com a miséria e permanecem no poder pela corrupção e indiferença, não escaparão do julgamento maior. Os desígnios divinos, soberanos e justos, alcançam a todos, pois diante deles nenhum sistema se sustenta.