
A rivalidade entre Minas Gerais e a Paraíba em relação à cachaça é antiga, com Minas detendo uma tradição centenária e a Paraíba despontando com engenhos que ganham destaque por sua técnica apurada e identidade singular. Essa disputa, que muitas vezes parecia teórica, se materializa a apenas 28 quilômetros de distância, em Cruz do Espírito Santo, Paraíba, onde acontece algo fora do comum.
Murilo Coelho, natural de Minas Gerais, engenheiro civil de formação, e residente em João Pessoa há mais de dez anos, compartilhou sua trajetória até se tornar um mestre na produção de cachaça artesanal. Curiosamente, no início, ele não possuía nenhum conhecimento sobre a bebida e sequer a consumia.
“Sabia zero de cachaça. Pensava até que sabia beber e depois descobri que nem isso eu sabia.”
Após vir para a Paraíba a trabalho, Murilo decidiu ficar e se aprofundou em cada etapa da produção com um rigor que chama atenção mesmo entre os mais tradicionais produtores. Para aprimorar suas habilidades, retornou a Minas Gerais para aprender com especialistas no assunto.
Foi em seu próprio engenho na Paraíba que Murilo começou a produzir uma das melhores cachaças brancas do Brasil, desafio que ele encara evitando folclore e apostando em método, repetição e seleção cuidadosa. Essa dedicação resultou em reconhecimento nacional: a cachaça branca Nobre, produzida por ele, foi eleita a melhor do país na última edição do Ranking da Cúpula da Cachaça, enquanto sua versão envelhecida conquistou a quinta posição. Em 2026, três rótulos de Murilo figuram entre os melhores, e outros dois produtores paraibanos disputam a liderança.
O segredo do sucesso, segundo Murilo, é a combinação entre técnica e atenção minuciosa aos detalhes. Ao contrário da produção artesanal tradicional, que valoriza a peça única, a cachaça exige padronização, com aroma, sabor, equilíbrio alcoólico e consistência mantidos em todas as safra. Murilo compara seu trabalho ao de um perfumista, buscando sempre replicar a excelência em cada lote.
“Trabalho com cachaça como se fosse um perfumista.”
Essa dedicação à precisão se reflete no sabor apreciado com calma, muitas vezes harmonizado com frutas e queijos para realçar as nuances da bebida, nunca para mascarar a qualidade. O consumo consciente é fundamental para valorizar a experiência e entender o que faz a cachaça de Murilo ser reconhecida em todo o país.
Em Cruz do Espírito Santo, o processo que começa no engenho reúne tradição, origem e tempo para transformar a matéria-prima em uma cachaça com identidade própria e qualidade premiada, consolidando a Paraíba como um importante polo produtor no cenário nacional.