
A região Nordeste consolida-se como protagonista no avanço da dessalinização no Brasil, reunindo os projetos mais estruturados, as experiências mais maduras e os maiores volumes de investimento público no setor. Esse destaque é evidenciado pelo estudo “Segurança Hídrica Industrial: o papel da dessalinização no Brasil”, elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que aponta o Nordeste como referência nacional tanto em inovação quanto em implementação prática dessa tecnologia. A diversidade de iniciativas na região é ampla, abrangendo desde pequenos sistemas comunitários no semiárido até grandes plantas em áreas urbanas e projetos estratégicos em ilhas oceânicas.
Esse protagonismo está diretamente relacionado às características geográficas e climáticas da região. O Nordeste brasileiro enfrenta historicamente desafios associados à escassez hídrica, especialmente no semiárido, onde as chuvas são irregulares e os períodos de estiagem podem ser prolongados. Nesse contexto, a dessalinização surge como uma alternativa estratégica para garantir o abastecimento de água potável, reduzindo a dependência de fontes tradicionais e aumentando a resiliência hídrica das populações locais.
Apesar dos avanços operacionais e tecnológicos, o setor ainda enfrenta entraves importantes, sobretudo no campo regulatório. A ausência de um marco normativo específico para a dessalinização no Brasil cria incertezas e dificulta a expansão de novos projetos. O estudo da CNI destaca lacunas relevantes, como a falta de diretrizes claras para o descarte da salmoura — resíduo altamente concentrado em sais resultante do processo — e a inexistência de normas específicas para o licenciamento ambiental dessas usinas. Esses fatores podem atrasar investimentos e gerar insegurança jurídica para os empreendedores. Nesse sentido, especialistas defendem a construção de um arcabouço regulatório moderno, que contemple padrões técnicos claros, segurança ambiental e incentivo à inovação.
Outro ponto estratégico é a integração da dessalinização com fontes renováveis de energia. Como se trata de um processo intensivo em consumo energético, o uso de energia solar e eólica — abundantes no Nordeste — pode reduzir significativamente os custos operacionais e tornar os projetos mais sustentáveis. Iniciativas que já utilizam energia fotovoltaica demonstram o potencial dessa integração, especialmente em comunidades isoladas, onde o acesso à rede elétrica é limitado.
O litoral nordestino apresenta condições especialmente favoráveis para a expansão da dessalinização em larga escala. Com cerca de 7.500 km de extensão e uma população expressiva vivendo próxima à costa, a região oferece uma combinação de alta demanda por água e acesso direto à água do mar, matéria-prima essencial para o processo. Além disso, a crescente expansão industrial e energética aumenta ainda mais a necessidade de soluções hídricas seguras e contínuas. Os custos da dessalinização no Nordeste já se mostram competitivos em comparação com padrões internacionais, variando entre US$ 0,50 e US$ 0,80 por metro cúbico, o que reforça a viabilidade econômica da tecnologia.
Entre os exemplos mais emblemáticos está o sistema implantado em Fernando de Noronha, que representa um marco na autonomia hídrica de ilhas brasileiras. Com a adoção da tecnologia de osmose reversa, foi possível mais que dobrar a capacidade de produção de água potável, eliminando o racionamento e reduzindo drasticamente a dependência de soluções emergenciais, como o uso de caminhões-pipa. Os impactos positivos vão além do abastecimento, alcançando o turismo e a qualidade de vida da população local.
Outro caso relevante é o projeto desenvolvido no Rio Grande do Norte, que leva água potável a comunidades indígenas por meio de sistemas de dessalinização movidos a energia solar. Essa iniciativa destaca o papel social da tecnologia, promovendo inclusão e melhoria das condições de vida em áreas historicamente vulneráveis.
No campo urbano, a futura usina de dessalinização de Fortaleza representa um salto de escala para o Brasil e para a América do Sul. Com investimento bilionário e capacidade para atender centenas de milhares de pessoas, o projeto simboliza a transição da dessalinização de solução emergencial para componente estruturante do sistema de abastecimento hídrico.
Já no semiárido, programas como o Água Doce demonstram a importância da dessalinização em pequena escala, atendendo comunidades rurais dispersas. No entanto, esses sistemas ainda enfrentam desafios relacionados ao custo operacional e à manutenção, especialmente devido à falta de economia de escala e à necessidade de capacitação técnica local.
Além da aplicação prática, o Nordeste também se destaca como polo de pesquisa e desenvolvimento na área. Instituições acadêmicas vêm desempenhando papel fundamental na adaptação das tecnologias às condições regionais, buscando soluções mais eficientes, acessíveis e sustentáveis. Essas iniciativas contribuem para a formação de conhecimento técnico nacional e para a redução da dependência de tecnologias importadas.
Diante desse cenário, é possível afirmar que o Nordeste brasileiro não apenas lidera a implementação da dessalinização no país, mas também molda o futuro dessa tecnologia no contexto nacional. Apesar dos desafios regulatórios e operacionais, o conjunto de experiências, investimentos e potencial natural coloca a região em posição estratégica para expandir o uso da dessalinização como solução estruturante para a segurança hídrica. O avanço dependerá, sobretudo, da criação de políticas públicas consistentes, da consolidação de um ambiente regulatório adequado e do fortalecimento da integração entre inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental.