
Em 31 de dezembro de 2025, o Valor Econômico destacou a projeção de um superávit de US$ 67 bilhões na balança comercial brasileira para 2026, um número expressivo diante de um cenário internacional mais restritivo. Embora o destaque seja para as grandes commodities, é necessário analisar mais de perto o papel do Nordeste nesse contexto.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que o Nordeste é responsável por cerca de 13% a 15% das exportações nacionais. Essa participação, apesar de estar abaixo dos grandes centros do Sudeste e Centro-Oeste, mantém-se estável e conta com setores que sustentam as exportações da região mesmo em momentos menos favoráveis.
Três estados do Nordeste concentram mais da metade das exportações locais: Bahia, Maranhão e Ceará. A Bahia lidera com aproximadamente US$ 12 bilhões exportados em 2024, impulsionados principalmente pelo petróleo e seus derivados, produtos químicos, papel, celulose e metais. Embora o petróleo da Bahia não alcance o volume do pré-sal do Sudeste, o polo químico-petroquímico do estado representa segmentos de maior valor agregado.
O Maranhão, com exportações entre US$ 6 bilhões e US$ 7 bilhões ao ano, destaca-se por seu papel logístico, atuando como plataforma estratégica para exportação de minério de ferro, alumina e soja pelo Arco Norte. A produção de alumina, derivada da bauxita, demonstra a especialização da região, contribuindo para a eficiência das exportações brasileiras.
O Ceará soma cerca de US$ 4 bilhões em exportações e apresenta uma pauta diversificada, que inclui calçados, têxteis, alimentos processados e siderurgia. Recentemente, o estado tem investido no segmento de energias renováveis, com crescimento constante, ainda que em valores modestos.
Outros estados do Nordeste também participam do cenário exportador, embora em menor escala. Pernambuco exporta produtos químicos, alimentos e derivados de petróleo, totalizando cerca de US$ 2 bilhões anuais. O Rio Grande do Norte tem destaque na fruticultura e na exportação de sal. Juntos, esses estados ampliam a base exportadora da região, sem modificar o protagonismo dos grandes polos nacionais.
Apesar da importância da região, fica claro que o Nordeste não será o principal responsável pelo superávit da balança comercial brasileira em 2026, que ainda dependerá majoritariamente do desempenho da soja, do minério de ferro e do petróleo em larga escala. O papel da região é complementar, contribuindo para reduzir a concentração das exportações, diversificar a pauta e proporcionar maior estabilidade ao saldo externo.
Representantes empresariais do Nordeste reforçam essa visão. Cassiano Pereira, presidente da Federação das Indústrias da Paraíba e da associação Nordeste Forte, destaca a necessidade de resgatar a autoestima da indústria regional por meio do reconhecimento de suas limitações e do fortalecimento das cadeias produtivas e ganhos de eficiência reais.
Em um ambiente internacional marcado pela desaceleração do comércio e pelo aumento de barreiras, a contribuição do Nordeste não muda drasticamente o cenário, mas ajuda a evitar perdas mais significativas. A região não é protagonista nem mero coadjuvante na balança comercial brasileira, mas uma peça funcional para um modelo que requer cada vez mais diversificação, pragmatismo e resiliência.