
A cochonilha-do-carmim causou a destruição de mais de 850 mil hectares de palma forrageira no semiárido do Nordeste ao longo das últimas duas décadas. Entretanto, esse cenário começa a mudar com a introdução da variedade Orelha de Elefante Mexicana (Opuntia stricta), resistente ao inseto, em campos de multiplicação do programa InovaPalma, coordenado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) em parceria com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA/MCTI). Em fevereiro, foram implantados plantios dessa cultivar em cinco municípios: São José do Seridó, Apodi e Equador, no Rio Grande do Norte, Quixeramobim e Iguatu, no Ceará. A Orelha de Elefante Mexicana já representa mais de 80% das novas áreas cultivadas de palma forrageira desde a reconstituição iniciada em 2008.
A palma forrageira ocupa atualmente entre 500 e 600 mil hectares no semiárido, sendo a maior área de cultivo da planta em escala mundial. Essencial para sustentar a pecuária bovina, caprina e ovina durante períodos de seca, a palma oferece energia e água aos animais, com alto teor de carboidratos não fibrosos e capacidade de produção mesmo sob baixas precipitações anuais de até 200 mm, condição que inviabiliza plantas forrageiras convencionais. Antes da infestação da cochonilha, a área cultivada ultrapassava 1 milhão de hectares. No Censo Agropecuário de 2017 do IBGE, o total colhido caiu para 147.439 hectares, reflexo das perdas ocasionadas pela praga.
A escolha pela variedade Orelha de Elefante Mexicana baseia-se em décadas de pesquisa pelo Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), que identificou a cultivar como altamente resistente à praga. O código IPA 200016 apresenta metabolismo fotossintético do tipo CAM, que reduz a perda hídrica e assegura eficiência na fotossíntese mesmo em condições adversas. Em sistemas irrigados, pode produzir até 37,55 toneladas de matéria seca por hectare em cada ciclo anual, e substituir até 80% do milho na dieta de ruminantes mantendo o desempenho produtivo.
O programa InovaPalma foi lançado em outubro de 2023, com orçamento de R$ 7,5 milhões do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), e atua em três frentes: expansão do cultivo, produção de farelo e pesquisa aplicada. A Rede Palma, coordenada pela Sudene, reúne instituições como Embrapa, universidades e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Em março de 2025, convênios para execução de R$ 6 milhões foram assinados com INSA e Universidade Federal da Paraíba (UFPB) para instalação de campos de multiplicação e distribuição de 18 milhões de cladódios-semente, com capacitação de agricultores e intercâmbios técnicos. Projetos adicionais aprovados em 2025 somam mais R$ 5,3 milhões para expansão do cultivo e produção industrial de farelo.
Além da alimentação animal, a cadeia da palma vem sendo ampliada com produtos alimentícios derivados como farinha para panificação, picles, geleias e molhos, apresentados em eventos científicos. Pesquisas também avaliam o uso da palma na nutrição de ruminantes para viabilizar comercialização junto a frigoríficos. O plano do InovaPalma inclui 18 unidades de multiplicação em seis estados e Minas Gerais, com visitas técnicas realizadas e previstas para os próximos meses.
A recuperação da área cultivada e a expansão futura no semiárido têm como base cultivares resistentes à cochonilha, consolidando a Orelha de Elefante Mexicana como o padrão genético para novos plantios na região.