
Na Paraíba, o transplante de órgãos representa uma esperança de vida para muitas pessoas, mas o sistema de saúde ainda enfrenta desafios devido à limitada oferta de órgãos disponíveis para doação. Atualmente, cerca de 844 pessoas aguardam na fila por um transplante, destacando a urgência e a complexidade dessa corrente de solidariedade que pode salvar até oito vidas com uma única doação.
Willis Ferreira é um exemplo de sucesso nessa trajetória: em 25 de março de 2022, aos 60 anos, ele recebeu um novo coração após esperar por quatro anos. A autorização de doação da mãe do jovem que teve seu órgão utilizado foi fundamental para a realização do procedimento. Entretanto, muitas famílias ainda recusam a doação, mesmo diante da manifestação prévia de interesse dos falecidos, configurando o maior obstáculo na doação e transplante de órgãos no estado.
Ainda assim, os números indicam avanços importantes. Em 2024, a Paraíba alcançou o recorde de 50 doações de múltiplos órgãos, aumento de 28%, e elevado o número de transplantes cardíacos e de córneas, reduzindo as listas de espera. Ao longo de 2025, foram contabilizadas 46 doações e 232 transplantes realizados, entre eles 16 corações doados, com 11 transplantados dentro do estado e outros encaminhados para Pernambuco e Ceará.
O ano de 2025 também registrou marcos históricos, como a primeira doação múltipla de órgãos na cidade de Patos, a zeragem inédita da fila de transplante cardíaco na Paraíba e o primeiro transplante cardíaco no Sertão, além do primeiro transplante cardíaco pediátrico realizado integralmente pelo SUS. Em 2026, já ocorreram 18 transplantes e quatro doações múltiplas, incluindo uma doação de coração no Sertão.
Atualmente, a Paraíba realiza transplantes de coração, fígado, rins e córneas, mas ainda carece de equipes para órgãos como pulmão e pâncreas. Os principais centros para esses procedimentos são o Hospital Metropolitano em Santa Rita, o Hospital da Unimed João Pessoa, o Memorial São Francisco, o Hospital Nossa Senhora das Neves, o Hospital Universitário Lauro Wanderley e o Hospital de Trauma de Campina Grande.
A fila de transplantes não segue uma ordem cronológica, mas critérios técnicos de compatibilidade sanguínea, genética, peso e altura, além da gravidade do paciente. A logística para realizar a cirurgia é complexa e tem papel decisivo no sucesso do transplante, pois o tempo entre a retirada do órgão e seu implante deve ser o menor possível. Após a cirurgia, o receptor necessita de acompanhamento contínuo, uso de medicação imunossupressora e avaliações constantes para evitar rejeições.
Do ponto de vista financeiro, o SUS custeia integralmente os transplantes públicos. Entre 2023 e meados de 2024, o Ministério da Saúde investiu R$ 96 milhões em mais de 14 mil procedimentos em todo o país. Na Paraíba, o transplante cardíaco é o mais dispendioso, com custo médio de R$ 37 mil, seguido pelos renais e córneas, que têm custos menores.
Para a médica Tauanny Frazão, responsável pelos transplantes cardíacos no Hospital Metropolitano, o maior desafio no estado não é o custo, mas a escassez de órgãos doados, o que evidencia a importância de intensificar as campanhas de incentivo à doação, esclarecer dúvidas da população e buscar ativamente novos doadores. O governo estadual tem investido na modernização dos equipamentos, na aquisição de aeronaves para transporte de órgãos e no treinamento das equipes, contribuindo para o avanço dos transplantes.
Willis Ferreira, que já recebeu um novo coração, reforça a importância da doação de órgãos para salvar vidas: “Por Deus ter me dado um novo coração, uma nova vida, eu falo para todos: sejam doadores. Receber um órgão é uma emoção muito grande.”