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Pomares nativos e o sabor da biodiversidade brasileira autêntica
3 de março de 2026 / 08:54
Foto: Divulgação

O Brasil detém a maior biodiversidade do planeta, porém a variedade de frutas consumidas no cotidiano das pessoas é bastante limitada, restrita a algumas espécies amplamente conhecidas como banana (Musa spp.), manga (Mangifera indica), uva (Vitis vinifera) e maçã (Malus domestica), além dos inúmeros cítricos como laranja (Citrus sinensis) e limão (Citrus limon). Essas frutas, apesar de dominarem o mercado nacional, foram introduzidas no país e adaptadas ao clima tropical, não sendo nativas.

Recentemente, ao retornar ao Mercado Municipal de São Paulo, renomado pela variedade e quantidade de frutas, busquei especificamente por frutos brasileiros nativos para os projetos de paisagismo que faço, mas percebi que são pouco habituais para os consumidores e difíceis de encontrar. O próprio mercado afirma ofertar frutas comuns e exóticas, porém o que chama a atenção é que no Brasil as frutas originárias da nossa flora são consideradas exóticas justamente por sua raridade.

Na minha busca, procurei por espécies como grumixama (Eugenia brasiliensis), cambuci (Campomanesia phaea), cabeludinha (Plinia glazioviana), cagaita (Eugenia dysenterica) e uvaia (Eugenia pyriformis), que são importantes para nossa história ecológica e cultural, mas os vendedores informaram que essas frutas são difíceis de obter e raramente disponíveis.

Em contraste, encontrei frutas nativas da Amazônia bastante conhecidas, como cacau (Theobroma cacao), graviola (Annona muricata) e cupuaçu (Theobroma grandiflorum), além de frutos do Nordeste e do Cerrado, como umbu (Spondias tuberosa), maracujá silvestre (Passiflora spp.), siriguela (Spondias purpurea), caju (Anacardium occidentale) e goiaba (Psidium guajava). Também experimentei o marolo (Annona crassiflora), fruto do Cerrado com aroma intenso, disponível apenas no período da Quaresma, o qual despertou meu interesse apesar de não ser o meu favorito.

Essa experiência revela uma contradição evidente: nosso país possui uma biodiversidade frutífera enorme, entretanto consumimos predominantemente frutas estrangeiras pela falta de conhecimento e valorização de nossas espécies nativas. A escassez desses frutos no mercado não decorre somente da oferta, mas sobretudo da demanda, pois o desconhecimento gera desprezo e diminui a produção e preservação.

Discutir pomares nativos é também debater identidade cultural e conservação ambiental. As frutas locais carregam adaptações específicas a seus respectivos biomas, necessitando de menos recursos hídricos e químicos quando cultivadas em seus ambientes naturais, o que também apoia a fauna local e fortalece ecossistemas mais equilibrados e sustentáveis, promovendo práticas agrícolas mais adaptadas ao clima e solo brasileiros.

Valorizar e conhecer nossas frutas nativas representa aproximar-se da nossa identidade, ampliar sabores, tradições e memórias, fazendo com que a biodiversidade seja vivenciada na rotina e cultura, não apenas um índice estatístico. Enquanto as frutas nativas continuarem sendo raridades nos mercados, a verdadeiramente nossa riqueza será tratada como exótica.

O momento é de replantar não apenas os pomares nativos, mas a conexão do brasileiro com a biodiversidade própria do seu território.

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