
Um trecho de 33 quilômetros do litoral de Pernambuco é considerado o local de maior risco para ataques de tubarão em toda a costa do Brasil. Nos últimos 34 anos, foram contabilizadas 82 mordidas e 27 mortes em incidentes envolvendo tubarões nessa região, que abrange áreas de Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes. Em contrapartida, no Sudeste do país, mesmo com a presença de espécies agressivas como o tubarão-tigre em áreas turísticas, os registros de ataques são praticamente inexistentes. Esse contraste se explica principalmente pelas diferenças ambientais e pelas ações humanas nas duas regiões.
No Sudeste, a Baía da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, é exemplo de um ambiente preservado, onde grupos de tubarões-tigre foram identificados nadando juntos, o que é incomum para essa espécie. Apesar disso, não há relatos de ataques na baía, atribuídos ao equilíbrio ambiental da área, que inclui manguezais preservados, áreas com pesca restrita, abundância de alimentos e zonas de proteção ambiental bem conservadas. Esse cenário garante que os tubarões não precisem se aproximar das áreas de banho em busca de alimento, diminuindo os riscos.
Por outro lado, em Pernambuco, as condições são desfavoráveis. Correntes marítimas levam lixo e esgoto diretamente para as praias, atraindo peixes e, consequentemente, tubarões para zonas de banho. A água turva reduce a visibilidade, aumentando a possibilidade de ataques por engano. Além disso, parte do litoral é utilizada para reprodução do tubarão-cabeça-chata, cuja fêmea prenhe costuma ficar próxima à costa, elevando o risco para banhistas. Outro fator agravante é a influência do Porto de Suape, cuja construção alterou significativamente a geografia e a dinâmica costeira, criando rotas de passagem para peixes e aumentando o descarte de restos orgânicos no mar.
O monitoramento científico da região, realizado por anos por meio do barco de pesquisa Sinuelo, foi interrompido há 11 anos por falta de recursos, o que dificultou a gestão do problema. Somente após ataques recentes, inclusive em Fernando de Noronha, foram retomadas ações de captura, microchipagem e soltura dos animais para controle. Alterações climáticas e a oferta irregular de alimentos também influenciam no comportamento dos tubarões em Pernambuco, atraindo-os para zonas menos profundas. Assim, o número de ataques nessa região continua superior ao registrado no Sudeste, reforçando a necessidade de medidas ambientais e de monitoramento contínuo para mitigar os riscos.