
A tradição do presente para Iemanjá, celebrada no dia 2 de fevereiro em Salvador, constitui um dos mais expressivos marcos de fé e religiosidade popular da Bahia, atravessando mais de dois séculos de história. Enraizada especialmente no bairro do Rio Vermelho, a festa reúne devoção, ancestralidade e resistência cultural, reafirmando a força dos cultos de matriz africana no cotidiano da cidade. Durante as festividades, o bairro se transforma em um grande espaço sagrado a céu aberto, tomado predominantemente pelas cores azul e branco — símbolos da divindade das águas salgadas — que ornamentam ruas, barcos, roupas e oferendas levadas por milhares de devotos e admiradores.
Os pescadores da região e os membros do povo de terreiro assumem um papel central na celebração, sendo responsáveis pela condução do principal ritual: a entrega do presente à Mãe das Águas. Em 2026, a coordenação da preparação da oferenda ficou, pelo segundo ano consecutivo, sob a responsabilidade de Mãe Nicinha de Nanã, liderança religiosa de grande relevância, reconhecida por seu compromisso com a preservação dos fundamentos tradicionais do culto. Embora o objeto escolhido para a oferenda ainda não tenha sido divulgado, o processo de preparação já envolve um rigoroso calendário espiritual, pautado pelo respeito às normas litúrgicas do candomblé.
Segundo Elias Conceição, Ogan do Terreiro Olufanjá, o preparo do presente vai muito além do aspecto material. Trata-se de um processo profundamente espiritual, que demanda recolhimento, dedicação e uma série de rituais específicos. Esses ritos incluem banhos de ervas, rezas, oferendas preliminares e pedidos de permissão a Oxalá, orixá regente da casa, além da invocação de proteção para todos os envolvidos direta ou indiretamente na celebração. Cada etapa é realizada com extremo cuidado, reforçando a sacralidade do momento e a responsabilidade coletiva com a tradição.
A parceria histórica entre os pescadores do Rio Vermelho e o povo de terreiro é um dos pilares que sustentam a Festa de Iemanjá. Essa união simboliza não apenas a devoção compartilhada à divindade, mas também a interdependência entre trabalho, fé e identidade cultural. O ritual culmina na saída das embarcações rumo ao alto-mar, onde o presente é entregue a Iemanjá seguindo todos os preceitos exigidos pela tradição, em um momento carregado de emoção, silêncio respeitoso e esperança.
Para Elias Conceição, é fundamental que a festa mantenha seu foco na religiosidade e na ancestralidade, a fim de preservar sua essência original. Ele ressalta que a Festa de Iemanjá possui profundas raízes históricas ligadas ao povo negro, aos saberes ancestrais e aos cultos trazidos da África, e alerta para os riscos da descaracterização do evento. “É de grande importância que não se mercantilize a festa de Iemanjá”, afirma, destacando que a fé, o respeito e a seriedade nos ritos são os elementos que verdadeiramente sustentam a celebração ao longo do tempo.
Desde 1923, a Colônia de Pescadores Z1 desempenha papel fundamental na organização e continuidade da festa, atuando em conjunto com o povo de terreiro. A entidade é responsável pela aquisição dos materiais necessários para a oferenda, além de garantir suporte logístico e segurança aos pescadores durante a cerimônia. Para o presidente da colônia, Nilo Garrido, a tradição é inseparável da identidade da categoria e do próprio bairro do Rio Vermelho. “Sem pescador aqui do Rio Vermelho, não tem a festa de Iemanjá”, afirma, reforçando o protagonismo da comunidade pesqueira nesse ritual centenário.
Reconhecida como Patrimônio Imaterial de Salvador desde 2020, a Festa de Iemanjá representa um momento coletivo de entrega, fé e valorização da ancestralidade. O presente oferecido à divindade simboliza não apenas um gesto de devoção, mas também o compromisso com a preservação da cultura, da espiritualidade e da memória do povo baiano, reafirmando a importância de manter vivas as tradições que moldam a identidade da cidade e de sua gente.