
A atenção à Primeira Infância, compreendida entre 0 e 6 anos, é fundamental, pois durante essa fase ocorrem 90% das conexões neurais ligadas ao aprendizado, memória e desenvolvimento físico. Em Fortaleza, esse período crucial enfrenta desafios como o desconhecimento sobre sua importância, desigualdades sociais e principalmente a falta de vagas em creches, que impacta diretamente o desenvolvimento das crianças. Segundo a Secretaria Municipal da Educação, a cidade possui 346 unidades municipais e parceiras somando 28 mil crianças matriculadas de até 3 anos, porém ainda restam 2.800 crianças sem vaga. Atualmente, a Prefeitura atende 38% dessa população, mas o plano municipal para 2025 prevê atingir 50% dessas vagas.
A escassez histórica de vagas na Educação Infantil em Fortaleza afeta não apenas as famílias, que precisam garantir espaço para que seus filhos sejam cuidados enquanto trabalham, mas também o futuro dos próprios pequenos. As creches são ambientes essenciais para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, motoras e emocionais. Estudos mostram que 84% dos brasileiros não reconhecem os primeiros anos de vida como determinantes para o desenvolvimento humano, evidenciando a necessidade de mais informações sobre o tema. O Unicef enfatiza que crianças precisam de afeto, cuidado e alimentação adequada nessa fase, pois os prejuízos da negligência persistem ao longo da vida.
Na prática, a falta de vagas obriga famílias, como a da vendedora ambulante Arizângela Gurgel, a cuidarem dos netos em casa, enfrentando dificuldades para matriculá-los nas creches. A espera por uma vaga pode ultrapassar um ano, situação que gera cansaço e preocupação por um ambiente mais adequado ao desenvolvimento das crianças. Para muitas mães, como Ana Carolina Pereira, a inserção dos filhos na creche contribui para melhorar a rotina, reduzir o tempo de exposição às telas e oferecer oportunidades de aprendizado e socialização importantes na Primeira Infância.
Em 2018, o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará entrou com ação judicial solicitando a ampliação das vagas, com determinação para o município ampliar um mínimo de mil vagas a cada ano. Embora haja orçamento para construção de novos centros, a maior parte dos recursos tem sido destinada ao credenciamento de creches parceiras, consideradas estratégicas para suprir a demanda imediata. A Secretaria Municipal da Educação informa que seis novos Centros de Educação Infantil estão em construção e que edital para expansão das vagas está em andamento.
A Secretaria possui monitoramento rigoroso da qualidade das creches parceiras, seguindo normas específicas. Incidentes trágicos no passado, como o acidente fatal em uma creche conveniada em 2018, reforçam a importância do controle social e da participação das famílias para garantir segurança e qualidade. A luta das mães da comunidade Parque Santa Maria, que motivou melhorias e a criação de um centro infantil, destaca o papel da cidadania ativa.
Especialistas ressaltam que na Primeira Infância existe uma janela de oportunidades para intervenções que possam romper ciclos de pobreza e promover o desenvolvimento integral da criança. A neurociência confirma que até os seis anos o cérebro realiza 90% de suas conexões, reforçando a necessidade de ambientes educativos e sociais adequados, com professores qualificados e práticas pedagógicas específicas. A fase exige políticas públicas intersetoriais, envolvendo saúde, assistência social e combate à violência.
O relato da psicóloga e mãe de criança com Síndrome de Down, Mykaelle Silva, evidencia a importância do acesso precoce à educação como base para a qualidade de vida e socialização das crianças. Em Fortaleza, apesar dos desafios, pais e especialistas continuam buscando ampliar a oferta e a qualidade da educação para essa fase vital da vida.