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Professora baiana leva pesquisa do Bembé do Mercado ao carnaval do Rio
21 de fevereiro de 2026 / 14:10
Foto: Divulgação

A pesquisa da professora e historiadora baiana Ana Rita Araújo Machado foi peça-chave na construção do samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis, vice-campeã do Carnaval do Rio de Janeiro. A escola levou para a Marquês de Sapucaí uma homenagem ao Bembé do Mercado, tradicional celebração realizada em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, reconhecida como o maior candomblé de rua do mundo.

O Bembé foi tema da dissertação de mestrado de Ana Rita, desenvolvida no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, vinculado à Universidade Federal da Bahia. O trabalho acadêmico serviu como base histórica para a narrativa apresentada na Sapucaí no dia 16 de fevereiro. Na apuração, realizada em 18 de fevereiro, a Beija-Flor conquistou o segundo lugar, ficando atrás apenas da Unidos do Viradouro, que somou 270 pontos. As duas agremiações retornaram à avenida no tradicional Desfile das Campeãs, no dia 21.

O primeiro contato da escola com a pesquisa de Ana Rita ocorreu por meio de um estudo realizado em parceria com o Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira, em Salvador. A partir desse material, a Beija-Flor aprofundou a investigação até chegar à dissertação de mestrado. Durante cerca de um ano, integrantes da escola visitaram a Bahia, dialogaram com a comunidade de Santo Amaro e reuniram informações históricas detalhadas, estabelecendo uma cooperação que fortaleceu o intercâmbio entre o campo acadêmico e o carnavalesco.

Ana Rita destacou o cuidado da equipe criativa em representar a comunidade de forma respeitosa e fiel às tradições. Embora a base histórica tenha sido fornecida por sua pesquisa, a concepção artística — incluindo alegorias, fantasias e estética do desfile — foi desenvolvida pelo carnavalesco João Vitor de Araújo e sua equipe.

O Bembé do Mercado teve início em 1889, pouco depois da abolição da escravidão, e acontece anualmente em 13 de maio. A celebração homenageia divindades das águas como Iemanjá e Oxum, simbolizando gratidão, proteção e resistência das populações negras no período pós-abolição. Em 2019, o evento foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de já ser considerado Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2012.

Para a historiadora, o Bembé representa um marco de organização e afirmação das comunidades negras no contexto pós-escravidão, sendo um patrimônio cultural brasileiro de grande relevância histórica e simbólica. A presença da celebração no carnaval da Sapucaí ampliou significativamente sua visibilidade nacional e internacional. Cerca de 40 representantes da comunidade de Santo Amaro viajaram ao Rio de Janeiro para participar do último carro alegórico da Beija-Flor, em um momento de forte simbolismo e afirmação das religiões afro-brasileiras em uma das maiores festas do mundo.

Natural de Santo Amaro, Ana Rita também se graduou em Feira de Santana e atualmente atua como professora na Universidade do Estado da Bahia, no campus de Santo Antônio de Jesus, onde colabora com o programa de mestrado. Em sua cidade natal, coordena o “Centro de Referência Bembé do Mercado: memórias e patrimônios de povos do terreiro e religiões africanas e afro-indígenas”, fortalecendo a preservação da memória e das tradições locais.

A escolha pelo Bembé como objeto de estudo está profundamente ligada à trajetória pessoal e acadêmica da pesquisadora no Recôncavo Baiano. Seu interesse pela história das populações negras no pós-escravidão se consolidou após um convite para mapear terreiros em Cachoeira, iniciativa que desencadeou uma jornada de pesquisa culminando na dissertação que, anos depois, encantaria milhões de pessoas na Sapucaí. Assim, a união entre ciência, cultura popular e carnaval evidenciou a força do Bembé do Mercado como símbolo de resistência, fé e identidade afro-brasileira.

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