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Saliva artificial protege dentes de pacientes com câncer em radioterapia
30 de janeiro de 2026 / 10:04
Foto: Divulgação

Uma saliva artificial em forma de enxaguante bucal, desenvolvida a partir de uma proteína modificada extraída da cana-de-açúcar, pode representar um avanço significativo nos cuidados bucais para pacientes com câncer de cabeça e pescoço que passam por radioterapia. Batizada de CaneCPI-5, essa substância foi criada por pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP), com os resultados publicados no Journal of Dentistry.

Pacientes submetidos à radioterapia na região da boca frequentemente enfrentam danos nas glândulas salivares, o que diminui drasticamente a produção de saliva. Essa condição, conhecida como xerostomia, provoca uma sensação constante de boca seca e favorece a proliferação de bactérias, além de aumentar o risco de cáries severas e gerar desconfortos como feridas na mucosa oral.

O estudo aponta que a CaneCPI-5 cria uma espécie de “escudo” protetor sobre o esmalte dos dentes, evitando o desgaste causado por ácidos encontrados em sucos, bebidas alcoólicas e até no suco gástrico. Além disso, a proteína reduz a atividade bacteriana na boca, contribuindo para a saúde dental dos pacientes.

Conduzida durante o doutorado da cirurgiã-dentista Natara Dias Gomes da Silva, a pesquisa contou com a colaboração de cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Universidade da Califórnia em São Francisco (EUA) e da Yonsei University College of Dentistry, na Coreia do Sul. O projeto é coordenado pela professora Marília Afonso Rabelo Buzalaf, da FOB-USP, que estuda maneiras de reforçar a proteção natural dos dentes.

Nos experimentos laboratoriais, a solução contendo a CaneCPI-5 foi aplicada diariamente por um minuto em fragmentos de dentes animais. Os resultados revelaram que o efeito protetor da proteína se intensifica quando combinada com flúor e xilitol, reduzindo significativamente a desmineralização dental — que consiste na perda de cálcio e fosfato do dente — e a atividade das bactérias que causam cárie.

Para os pesquisadores, a saliva artificial é uma inovação de grande importância, pois atualmente não há nenhum produto específico no mercado para prevenir as cáries graves que aparecem após a radioterapia em pacientes oncológicos de cabeça e pescoço. A CaneCPI-5 é o primeiro produto que segue o conceito da película adquirida, uma camada natural protetora formada sobre o dente, para tratar a xerostomia, conforme destaca a coordenadora do estudo. A proteína já está patenteada, e o próximo desafio é viabilizar sua produção em escala industrial.

A substância foi testada em diferentes formatos, incluindo enxaguante bucal, gel e filme orodispersível — película que se dissolve na língua liberando o composto de forma gradual —, apresentando resultados positivos em todas as aplicações. Além da área odontológica, a CaneCPI-5 tem mostrado potencial em estudos relacionados à cicatrização de feridas e controle da inflamação, expandindo suas possíveis utilizações clínicas.

Os próximos passos do estudo envolvem testar a combinação da proteína com outras moléculas naturais da saliva e investigar seu uso no tratamento da doença periodontal. Os pesquisadores acreditam que essa tecnologia poderá contribuir para novos tratamentos que melhorem a qualidade de vida de pacientes afetados pela redução da produção salivar após terapias contra o câncer.

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