
O Nordeste consolidou sua liderança na expansão da iniciativa privada no setor de saneamento em 2025. Um levantamento da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon) e do Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Sindcon) revelou que 77% dos municípios da região já firmaram contratos com metas de universalização, a maior proporção no país. Desde 2020, foram realizados 12 leilões que envolveram 403 municípios e atraíram R$ 27,9 bilhões em investimentos privados, sendo R$ 19 bilhões referentes à concessão parcial da Compesa, concluída em dezembro. Para 2026, estão previstos quatro novos projetos na região, com expectativa de atrair mais R$ 10 bilhões em investimentos.
Essa expansão é apoiada por modelos regionais que agrupam municípios com diferentes perfis econômicos, permitindo o subsídio cruzado entre localidades superavitárias e deficitárias. Os contratos agora incluem mecanismos de proteção social, como tarifas reduzidas para populações vulneráveis e cláusulas específicas voltadas à gestão de riscos climáticos, como a estiagem prolongada. Estes avanços têm atraído grandes operadores privados, mesmo em regiões com baixa cobertura atual. Por exemplo, na Região Norte, apenas 22,8% da população têm acesso à coleta e tratamento de esgoto, enquanto o abastecimento com água tratada é de 60,9%.
No Nordeste, a atuação privada no esgotamento sanitário já alcança 423 municípios (23,6%) e no abastecimento de água, 21,7%. Entre 2019 e 2023, a quantidade de Planos Municipais de Saneamento Básico (PMSB) cresceu 153%, passando de 307 para 778. No mesmo período, operadores privados trataram 2,5 bilhões de metros cúbicos de esgoto e expandiram as redes em 44.897 km para água e 9.576 km para esgoto, com destaque para os estados do Norte e Nordeste.
A Compesa mantém a captação e produção de água tratada, mas transferiu à iniciativa privada a operação da distribuição de água e coleta de esgoto em 175 dos 185 municípios pernambucanos. O leilão aconteceu em 18 de dezembro na B3, em São Paulo, encerrando o calendário nacional de concessões do setor em 2025. Dividido em dois blocos, o certame atraiu grandes grupos do setor. O Bloco Sertão, formado por 24 municípios, foi arrematado pelo Grupo Pátria com proposta de R$ 720 milhões em outorga e desconto tarifário máximo. O Bloco Pajeú, com 151 municípios, incluindo a Região Metropolitana do Recife e Fernando de Noronha, foi vencido pelo consórcio BRK-Acciona, que atua em Pernambuco desde 2013 via PPP. Ambas concessões duram 35 anos e estabelecem metas de 99% de cobertura no abastecimento de água e 90% no esgoto até 2033.
Outro destaque de 2025 foi o leilão de integração no Piauí, onde a Aegea passou a controlar os serviços de saneamento em todo o estado, unificando a operação em 224 municípios pela empresa Águas do Piauí. O contrato tem duração de 35 anos com investimentos superiores a R$ 5 bilhões, focando esgotamento sanitário, redução de perdas, tarifa social ampliada e cláusulas de adaptação climática.
Além de Pernambuco e Piauí, outros estados nordestinos expandiram a atuação privada. Alagoas opera desde 2020 com modelo regionalizado em três blocos, atendendo mais de 1,8 milhão de pessoas. O Ceará tem concessões em Fortaleza, Crato e Juazeiro do Norte, firmadas entre 2022 e 2023 com a Aegea. Em Sergipe, o contrato de 2024 com Iguá Saneamento abrange Aracaju e 73 municípios, com 2,33 milhões de habitantes atendidos. No Rio Grande do Norte, está prevista concessão plena para 48 municípios, com investimentos estimados em R$ 4 bilhões e atendimento a cerca de 1,85 milhão de habitantes, parte do ciclo de projetos para 2026. Bahia, Paraíba e Maranhão também possuem concessões parciais ou contratos em reestruturação, além de projetos previstos para 2026.
Segundo dados do Painel Abcon Data, Alagoas tem 86 municípios (84,3%) sob gestão privada com projeto em andamento para 21 municípios, com R$ 2,2 bilhões em investimentos e atendimento a 600 mil pessoas. Na Bahia, seis municípios (1,4%) possuem operação privada, como Serra do Ramalho em contrato iniciado em 2019, atendendo 31.355 habitantes. O Ceará conta com 25 municípios (13,6%) sob gestão privada e 159 públicos, com projeto envolvendo 128 municípios, R$ 6,9 bilhões em investimentos e cobertura a 1,6 milhão de pessoas. Maranhão tem seis municípios (2,8%) sob gestão privada, com projeto em Bom Jesus das Selvas, que iniciou concessão plena em 2022, atendendo 35,6 mil habitantes. Na Paraíba, Santa Rita é o único município (0,4%) em gestão privada, com contrato iniciado em 2019 para 126.383 habitantes. Pernambuco terá 175 municípios (94,6%) sob gestão privada, com 10 municípios públicos, todos regionalizados integralmente. No Piauí, todos os 224 municípios estão sob operação privada e totalmente regionalizados. No Rio Grande do Norte, a concessão plena abrangerá 48 municípios, com cerca de 1,85 milhão de habitantes e investimentos estimados em R$ 4 bilhões, com foco em ampliação de rede, redução de perdas e universalização até 2033. Sergipe conta com 74 municípios (98,7%) sob gestão privada e 100% regionalizada.
Quanto aos próximos projetos, dos seis grandes projetos estruturados pelo BNDES em todo o país, quatro estão concentrados no Nordeste, envolvendo 383 municípios e previsão de R$ 10 bilhões em investimentos privados, representando 66% dos municípios nacionais envolvidos e quase 20% do volume previsto de aportes, estimado em R$ 52 bilhões. A maioria está em fase de consulta pública e tem edital para o segundo semestre de 2026.
Na Paraíba, o foco é uma PPP para coleta e tratamento de esgoto em 93 municípios das regiões mais populosas, atendendo 2,29 milhões de pessoas e com investimentos estimados em R$ 3,45 bilhões. Em Alagoas, será lançada a quarta etapa do modelo regional, denominada Bloco D, com 28 municípios ainda não incluídos, população total de 660 mil habitantes e R$ 1,7 bilhão em investimentos. No Maranhão, o projeto envolve 214 municípios e R$ 18,7 bilhões em aportes, o maior entre os previstos, embora o edital tenha sido adiado.
Para 2026, o pipeline inclui seis grandes projetos estruturados pelo BNDES e outras concessões menores, somando R$ 27 bilhões em investimentos e cerca de 540 municípios envolvidos. Além dos estados nordestinos, estão previstos editais em Rondônia, interior do Ceará e Goiás. O destaque maior será a privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), considerada estratégica para grandes operadores. A Abcon/Sindcon projeta que o foco em 2026 será a expansão para regiões antes consideradas de baixo atrativo econômico, como Rondônia, consolidando a presença da iniciativa privada em áreas com infraestrutura pré-existente menor, reforçando assim o avanço do saneamento privado na região.