
A recente imposição de tarifas pelos EUA, que pode chegar a 15% sobre a importação de produtos brasileiros, alterou de forma significativa o cenário da exportação do açúcar nordestino inserido na tradicional cota americana. Até então, o açúcar exportado dentro dessa cota era isento de taxação, o que representava uma importante vantagem competitiva para os produtores da região, especialmente os do Norte e Nordeste.
O presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha, afirmou que, embora a possível alíquota de 15% seja considerada administrável diante do cenário atual, o objetivo do setor continua sendo o restabelecimento da taxa zero. Segundo ele, o ideal é avançar em um acordo bilateral que permita maior previsibilidade e competitividade para os produtores brasileiros, especialmente na definição da próxima cota americana.
Na safra atual, a cota destinada ao Brasil foi de 155 mil toneladas. Desse total, aproximadamente 135 mil toneladas — majoritariamente produzidas nas regiões Norte e Nordeste — foram exportadas sob uma taxação que chegou a 50% em determinado momento. Essa sobretaxa representou um forte impacto financeiro para os produtores locais, reduzindo margens e comprometendo o planejamento da safra.
O setor já vinha enfrentando dificuldades adicionais no mercado internacional. A queda nos preços globais do açúcar foi influenciada principalmente pelo aumento da produção em países como Índia e Tailândia, que ampliaram sua oferta no mercado externo. Esse excesso de oferta pressionou as cotações internacionais, reduzindo a rentabilidade dos exportadores brasileiros.
Além disso, fatores climáticos também prejudicaram a produção nordestina. Períodos mais secos ao longo do ciclo da cana-de-açúcar resultaram na redução do teor de sacarose, diminuindo o rendimento industrial da safra. Com menor produtividade e preços internacionais enfraquecidos, o aumento da carga tributária nas exportações agravou ainda mais o cenário para o setor sucroenergético da região.
Renovando as expectativas, Renato Cunha destacou que há esperança de que a nova cota dos EUA referente ao ano fiscal 2026/2027 seja anunciada antes de outubro, o que permitiria maior previsibilidade aos exportadores brasileiros. A previsibilidade é considerada fundamental para contratos futuros, planejamento logístico e definição de estratégias comerciais.
A instabilidade tarifária, entretanto, tem sido um dos principais entraves. Até março de 2025, o açúcar brasileiro dentro da cota era totalmente isento de tarifas. Em abril do ano passado, foi aplicada uma alíquota de 10%. Posteriormente, em agosto, durante o chamado “tarifaço” anunciado pelo então presidente Donald Trump, a taxação subiu para 50%, atingindo inclusive o açúcar exportado dentro da cota — além de outros produtos brasileiros. Inicialmente, havia expectativa de que a cota fosse poupada da sobretaxa, mas isso não se confirmou.
O cenário sofreu nova reviravolta quando a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegal o tarifaço, o que levou à redução da taxa para 10%. Ainda assim, Trump anunciou posteriormente a possibilidade de fixar a tarifa em 15%, com base em outra legislação comercial. Até o momento, porém, não há data oficial para a entrada em vigor dessa nova alíquota. Atualmente, permanece válida a tarifa de 10% para importações não isentas.
Para o açúcar nordestino, a questão tarifária é estratégica. O mercado norte-americano é historicamente relevante para o escoamento da produção dentro do sistema de cotas, e qualquer alteração nas alíquotas afeta diretamente o custo final do produto, a competitividade frente a outros exportadores e a sustentabilidade econômica do setor. Em um ambiente global já pressionado por excesso de oferta e desafios climáticos, a definição clara e estável das regras comerciais torna-se essencial para garantir segurança jurídica e viabilidade aos produtores brasileiros.