
Localizado a cerca de 100 quilômetros da sede do município de Petrolina, o distrito de Rajada, no Sertão de Pernambuco, abriga um patrimônio natural e histórico de enorme relevância. Inserido em meio à paisagem singular da Caatinga, o local oferece aos visitantes não apenas a contemplação da biodiversidade do bioma, mas também a oportunidade de entrar em contato com vestígios da presença humana de mais de 6 mil anos, que ajudam a compreender os primeiros modos de vida no semiárido nordestino.
Um dos principais destaques da região é o sítio arqueológico Açude das Pedras, que reúne gravuras rupestres milenares esculpidas em rochas magmáticas extremamente antigas, com cerca de 650 milhões de anos. Essas formações rochosas fazem parte da história geológica do planeta e, ao mesmo tempo, serviram de suporte para registros simbólicos deixados por grupos humanos pré-históricos, tornando o local um verdadeiro encontro entre o passado da Terra e o passado da humanidade.
Em 2015, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com pesquisadores especializados, realizou um estudo aprofundado das gravuras rupestres existentes em Rajada. A pesquisa envolveu três importantes sítios arqueológicos da região: Açude das Pedras, Sítio Manteiga e Papai Valério. O trabalho científico permitiu catalogar, analisar e validar a relevância histórica e cultural dos desenhos, consolidando o reconhecimento acadêmico e institucional do valor dessas manifestações rupestres.
Segundo o professor Genivaldo Nascimento, estudioso da área, embora o significado exato das gravuras tenha se perdido ao longo do tempo, sua importância é indiscutível. Ele ressalta que o esforço físico, técnico e intelectual necessário para produzir essas imagens indica que elas carregavam mensagens simbólicas relevantes para os grupos que as criaram, possivelmente ligadas a rituais, crenças, organização social ou relação com o ambiente. Para o pesquisador, essas gravuras representam uma tentativa clara de comunicação com o futuro, atravessando gerações.
O Açude das Pedras não é apenas um espaço de estudo acadêmico, mas também um lugar de vivência e memória para a comunidade local. Moradores como Francisco Arion relatam uma relação afetiva profunda com o sítio arqueológico, frequentado por ele desde a infância. Para muitos habitantes de Rajada, o local é fonte de fascínio, energia e renovação espiritual, reforçando o vínculo entre o patrimônio histórico e a identidade cultural da população.
Apesar de sua importância, o sítio arqueológico enfrenta ameaças constantes provocadas pela ação humana. O descarte inadequado de lixo, a realização de pichações, o uso indevido do espaço e até focos de incêndio colocam em risco a integridade das gravuras e das rochas, comprometendo um patrimônio que é insubstituível. Embora a prefeitura tenha instalado placas de sinalização e avisos de preservação, especialistas apontam que as ações de manutenção e conservação ainda precisam ser ampliadas e fortalecidas.
Diante desse cenário, o Iphan, em parceria com órgãos municipais e federais, intensificou as ações de fiscalização e orientação, buscando conscientizar visitantes e moradores sobre a importância da preservação do sítio. Paralelamente, a Agência Municipal de Meio Ambiente de Petrolina vem desenvolvendo iniciativas para restaurar a sinalização, controlar o fluxo de visitantes e planeja a instalação de cercas e lixeiras, medidas que visam reduzir os impactos negativos e proteger o espaço.
Para o professor Genivaldo Nascimento, a preservação adequada do patrimônio arqueológico de Rajada pode gerar benefícios que vão além da conservação histórica. Ele destaca o potencial de impulsionar o turismo rural e cultural, criando novas oportunidades econômicas para a comunidade local. Esse tipo de turismo sustentável pode incentivar a população a atuar como guardiã do sítio arqueológico, promovendo educação patrimonial e valorização da história regional.
As gravuras rupestres de Rajada representam, portanto, um legado de valor incalculável, tanto do ponto de vista histórico e cultural quanto geológico e científico. Elas transformam o distrito em uma referência para o estudo do passado humano e da evolução da Terra, evidenciando a urgência de políticas contínuas de proteção, valorização e educação. Preservar esse patrimônio é garantir que as futuras gerações possam compreender e respeitar as raízes profundas da presença humana no Sertão nordestino.