
O Ilé Iyá Omi Àse Iyamasé, mais conhecido como Terreiro de Gantois, é um dos mais importantes e respeitados espaços religiosos da Bahia e do Brasil, reconhecido por manter vivos os costumes, saberes e legados milenares dos povos iorubá. Fundado em 1949 pela africana Maria Júlia da Conceição Nazareth, o terreiro preserva, há mais de sete décadas, o culto aos Orixás, reafirmando a força da religiosidade de matriz africana como elemento fundamental da identidade cultural afro-brasileira.
Ao longo de sua trajetória, o Terreiro de Gantois consolidou-se como um símbolo de resistência cultural, espiritual e política, especialmente em um contexto histórico marcado por perseguições religiosas e discriminação contra os cultos de origem africana. O espaço se destaca por sua tradição matriarcal, na qual a liderança feminina é central e transmitida por critérios de hereditariedade e consanguinidade, valorizando os laços familiares e o papel das mulheres na preservação da fé e da cultura iorubá. Desde a sua fundação, seis mulheres estiveram à frente do terreiro, garantindo a continuidade dos rituais, da organização interna e da transmissão dos conhecimentos sagrados.
Nos últimos 23 anos, o Gantois foi liderado por Mãe Carmen, ialorixá que deu seguimento à missão de suas antecessoras com dedicação, sabedoria e profundo respeito às tradições ancestrais. Sua liderança reforçou a importância do terreiro não apenas como espaço religioso, mas também como referência cultural e histórica para a Bahia e para o país.
O nome Gantois tem origem no antigo proprietário das terras, Édouard Gantois, um traficante de escravizados de origem belga que arrendou o terreno para Maria Júlia da Conceição Nazareth. Com o passar do tempo, o local foi ressignificado e transformado em um território sagrado, onde a memória da ancestralidade africana foi preservada e fortalecida, convertendo um espaço marcado pela história da escravidão em um símbolo de resistência e espiritualidade.
Localizado na Rua Mãe Menininha do Gantois, no bairro da Federação, em Salvador, o terreiro ocupa uma área elevada, cercada por um bosque preservado, elemento fundamental tanto do ponto de vista simbólico quanto histórico. A presença da natureza é parte essencial da cosmologia do candomblé, sendo considerada sagrada e indispensável para os rituais. Além disso, essa localização mais isolada contribuiu, no passado, para proteger o terreiro de perseguições policiais e repressões religiosas, comuns durante grande parte do século XX.
A organização interna do Terreiro de Gantois reflete uma profunda simbologia religiosa, com a divisão clara entre os espaços destinados aos festejos públicos e aqueles reservados aos assentamentos das divindades, onde se concentram os fundamentos espirituais do culto. Cada elemento do espaço é cuidadosamente pensado para manter o equilíbrio entre o sagrado, a natureza e a comunidade.
Reconhecido por sua relevância histórica e cultural, o Terreiro de Gantois foi declarado Área de Proteção Cultural e Paisagística pela Prefeitura de Salvador e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Histórico e Etnográfico do Brasil. Esse reconhecimento oficial reforça a importância do local como guardião da memória afro-brasileira e como patrimônio vivo da cultura nacional.
Na madrugada de sexta-feira (26), Salvador e a comunidade do candomblé se despediram de Mãe Carmen, que faleceu após permanecer internada por duas semanas em decorrência de uma forte gripe. Nascida em 1926, ela completaria 99 anos no dia 29 de setembro. Sua morte representa uma perda profunda para os filhos e filhas de santo, para os adeptos do candomblé e para todos aqueles que reconhecem a importância das religiões de matriz africana na formação cultural do Brasil.
O velório será realizado no próprio Terreiro de Gantois, espaço que Mãe Carmen dedicou grande parte de sua vida, e o sepultamento ocorrerá no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. A despedida marca o encerramento de um ciclo, mas também reafirma a continuidade da tradição, sustentada pela ancestralidade, pela fé e pela comunidade.
Assim, o Terreiro de Gantois segue como um patrimônio vivo, resguardando as tradições ancestrais do povo iorubá e mantendo aceso o culto aos Orixás no cenário religioso, cultural e histórico da Bahia e do Brasil, reafirmando a força, a resistência e a espiritualidade do povo negro ao longo do tempo.