João Pessoa 28.13 nuvens dispersas Recife 28.02 nuvens dispersas Natal 28.12 nuvens dispersas Maceió 29.69 algumas nuvens Salvador 27.98 nublado Fortaleza 29.07 céu limpo São Luís 30.11 algumas nuvens Teresina 34.84 nuvens dispersas Aracaju 27.97 nuvens dispersas
publicidade
Tradição centenária na produção de louças de barro no semiárido da Paraíba
3 de janeiro de 2026 / 15:21
Foto: Divulgação

A tradicional arte de transformar barro em louças segue viva no semiárido da Paraíba, preservada com dedicação, memória e afeto pela artesã Ana Maria Monteiro, de 72 anos, moradora do Sítio Exu, na serra de Santa Luzia, no município de Junco do Seridó. Em meio à paisagem da caatinga, marcada pela resistência e pela força do sertão, Ana Maria mantém ativa uma prática artesanal centenária que atravessa gerações e carrega a identidade cultural da região.

O ofício é uma herança familiar que remonta ao início do século XX. Ana Maria aprendeu a trabalhar o barro ainda jovem, observando a mãe, Maria Franquilina Monteiro, que por sua vez recebeu os ensinamentos da própria avó. Desde então, o conhecimento foi transmitido de forma oral e prática, fortalecendo os laços familiares e garantindo a continuidade da tradição ao longo do tempo.

Atualmente, Ana Maria executa todas as etapas do processo artesanal em sua própria casa, onde criou o “Ateliê de Dona Ana”. O trabalho começa com a coleta do barro na região, passa pela modelagem manual das peças, secagem ao sol, queima e finalização, tudo feito com técnicas tradicionais, sem o uso de máquinas industriais. O ateliê, localizado próximo à rodovia BR-230, tornou-se um ponto de parada frequente para visitantes que desejam conhecer de perto o processo artesanal e a história por trás de cada peça.

No local, é possível acompanhar desde a extração da matéria-prima até o acabamento minucioso das louças. O ateliê oferece uma ampla variedade de produtos, como panelas, xícaras, jarros, potes, filtros de água e peças decorativas, todos moldados à mão. Os preços variam entre R$ 5 e R$ 100, de acordo com o tamanho, o tipo de peça e o acabamento solicitado pelo cliente.

Rodeada pela vegetação típica da caatinga, Ana Maria expõe suas criações com orgulho e emoção. Para ela, o trabalho vai além da geração de renda: é uma forma de manter viva a memória da mãe e da família. Em homenagem a Maria Franquilina, a artesã reservou um espaço especial no ateliê destinado à pintura e ao desenho das peças, etapa que antecede a finalização e que simboliza o cuidado e o respeito com a tradição herdada.

As louças produzidas no Ateliê de Dona Ana ultrapassam os limites de Junco do Seridó. As vendas alcançam diversas cidades da Paraíba e também outros estados, atendendo turistas, caminhoneiros que trafegam pela BR-230 e os chamados “filhos do sertão”, pessoas que retornam à região em busca de lembranças afetivas e objetos que remetem às suas origens.

O trabalho de Ana Maria integra a Rota do Bioma Caatinga Vale dos Sertões, lançada pelo Sebrae/PB em 2026, iniciativa que busca promover o turismo regional, valorizar a cultura local e impulsionar o desenvolvimento de pequenos negócios nos municípios de Areia de Baraúnas, Junco do Seridó, Quixaba e São José de Espinharas. A rota destaca experiências autênticas do sertão, conectando visitantes às histórias, saberes e modos de vida da população local.

Para a analista técnica do Sebrae, Socorro Oliveira, a tradição mantida por Ana Maria representa muito mais do que artesanato. Trata-se de uma expressão viva da cultura do semiárido, que reforça a identidade do território e evidencia a criatividade e a resiliência do povo sertanejo. Segundo ela, práticas como essa contribuem para fortalecer a economia local e preservar o patrimônio cultural imaterial da região.

A iniciativa também integra o programa Agentes de Roteiros Turísticos (ART), do Sebrae, que tem como objetivo fomentar o turismo criativo, estimular o empreendedorismo e dar visibilidade às belezas naturais, culturais e humanas do sertão paraibano. Por meio das histórias e atividades de moradores como Ana Maria Monteiro, o programa revela o potencial do semiárido e reafirma que tradição, identidade e desenvolvimento podem caminhar juntos.

Assim, no barro moldado pelas mãos de Dona Ana, permanecem não apenas utensílios domésticos, mas memórias, afetos e a resistência de uma cultura centenária, que segue viva no coração do sertão da Paraíba.

publicidade
Copyright © 2025. Direitos Reservados.