
A tradicional arte de transformar barro em louças segue viva no semiárido da Paraíba, preservada com dedicação, memória e afeto pela artesã Ana Maria Monteiro, de 72 anos, moradora do Sítio Exu, na serra de Santa Luzia, no município de Junco do Seridó. Em meio à paisagem da caatinga, marcada pela resistência e pela força do sertão, Ana Maria mantém ativa uma prática artesanal centenária que atravessa gerações e carrega a identidade cultural da região.
O ofício é uma herança familiar que remonta ao início do século XX. Ana Maria aprendeu a trabalhar o barro ainda jovem, observando a mãe, Maria Franquilina Monteiro, que por sua vez recebeu os ensinamentos da própria avó. Desde então, o conhecimento foi transmitido de forma oral e prática, fortalecendo os laços familiares e garantindo a continuidade da tradição ao longo do tempo.
Atualmente, Ana Maria executa todas as etapas do processo artesanal em sua própria casa, onde criou o “Ateliê de Dona Ana”. O trabalho começa com a coleta do barro na região, passa pela modelagem manual das peças, secagem ao sol, queima e finalização, tudo feito com técnicas tradicionais, sem o uso de máquinas industriais. O ateliê, localizado próximo à rodovia BR-230, tornou-se um ponto de parada frequente para visitantes que desejam conhecer de perto o processo artesanal e a história por trás de cada peça.
No local, é possível acompanhar desde a extração da matéria-prima até o acabamento minucioso das louças. O ateliê oferece uma ampla variedade de produtos, como panelas, xícaras, jarros, potes, filtros de água e peças decorativas, todos moldados à mão. Os preços variam entre R$ 5 e R$ 100, de acordo com o tamanho, o tipo de peça e o acabamento solicitado pelo cliente.
Rodeada pela vegetação típica da caatinga, Ana Maria expõe suas criações com orgulho e emoção. Para ela, o trabalho vai além da geração de renda: é uma forma de manter viva a memória da mãe e da família. Em homenagem a Maria Franquilina, a artesã reservou um espaço especial no ateliê destinado à pintura e ao desenho das peças, etapa que antecede a finalização e que simboliza o cuidado e o respeito com a tradição herdada.
As louças produzidas no Ateliê de Dona Ana ultrapassam os limites de Junco do Seridó. As vendas alcançam diversas cidades da Paraíba e também outros estados, atendendo turistas, caminhoneiros que trafegam pela BR-230 e os chamados “filhos do sertão”, pessoas que retornam à região em busca de lembranças afetivas e objetos que remetem às suas origens.
O trabalho de Ana Maria integra a Rota do Bioma Caatinga Vale dos Sertões, lançada pelo Sebrae/PB em 2026, iniciativa que busca promover o turismo regional, valorizar a cultura local e impulsionar o desenvolvimento de pequenos negócios nos municípios de Areia de Baraúnas, Junco do Seridó, Quixaba e São José de Espinharas. A rota destaca experiências autênticas do sertão, conectando visitantes às histórias, saberes e modos de vida da população local.
Para a analista técnica do Sebrae, Socorro Oliveira, a tradição mantida por Ana Maria representa muito mais do que artesanato. Trata-se de uma expressão viva da cultura do semiárido, que reforça a identidade do território e evidencia a criatividade e a resiliência do povo sertanejo. Segundo ela, práticas como essa contribuem para fortalecer a economia local e preservar o patrimônio cultural imaterial da região.
A iniciativa também integra o programa Agentes de Roteiros Turísticos (ART), do Sebrae, que tem como objetivo fomentar o turismo criativo, estimular o empreendedorismo e dar visibilidade às belezas naturais, culturais e humanas do sertão paraibano. Por meio das histórias e atividades de moradores como Ana Maria Monteiro, o programa revela o potencial do semiárido e reafirma que tradição, identidade e desenvolvimento podem caminhar juntos.
Assim, no barro moldado pelas mãos de Dona Ana, permanecem não apenas utensílios domésticos, mas memórias, afetos e a resistência de uma cultura centenária, que segue viva no coração do sertão da Paraíba.