
No dia 9 de fevereiro de 1996, Salvador tornou-se palco de um dos momentos mais emblemáticos da história da cultura pop mundial. Foi nessa data que o cantor Michael Jackson, então no auge de sua carreira, escolheu o Pelourinho, no Centro Histórico da capital baiana, para gravar o clipe da canção “They Don’t Care About Us”. A produção, que contou com a participação marcante do bloco afro Olodum, ultrapassou fronteiras e permanece viva até hoje no imaginário coletivo. Atualmente, o vídeo é o segundo mais assistido no canal oficial do artista no YouTube, acumulando mais de 1 bilhão de visualizações, um feito que reforça sua relevância histórica e cultural.
Na ocasião da gravação, o Pelourinho foi tomado por uma multidão. Segundo a Polícia Militar da Bahia, cerca de 200 músicos do Olodum participaram diretamente das filmagens, enquanto aproximadamente 5 mil pessoas acompanharam o evento, transformando o local em um verdadeiro caldeirão cultural. As imagens captadas naquele dia mostraram ao mundo não apenas um astro internacional, mas também a força da cultura afro-baiana, com seus tambores, cores, ritmos e resistência histórica.
Michael Jackson encontrou em Salvador um ambiente acolhedor e simbólico para dar vida a uma das músicas mais politizadas de sua carreira. “They Don’t Care About Us” é uma denúncia direta contra a opressão, o racismo, a violência institucionalizada e a desigualdade social, evidenciando a invisibilidade de grupos marginalizados por governos, forças policiais, meios de comunicação e elites econômicas. Ao escolher o Pelourinho — espaço marcado pela herança da escravidão e pela luta do povo negro —, o artista potencializou a mensagem da canção, unindo música, imagem e contexto histórico.
O percussionista Bira Jackson, integrante do Olodum, relembra com emoção o encontro com o Rei do Pop. Para ele, tocar ao lado de Michael foi uma experiência única e transformadora. “Parecia que a gente estava em Neverland”, afirmou, destacando o clima de encantamento e respeito que marcou aquele dia. Segundo Bira, Michael demonstrava alegria genuína durante as gravações, absorvendo a energia dos tambores e reconhecendo a importância simbólica daquela homenagem à cultura negra.
Antes mesmo da chegada do cantor, a expectativa já tomava conta do Pelourinho. A aparição de um sósia de Michael Jackson levou o público ao delírio, aumentando ainda mais a ansiedade. Quando o verdadeiro artista surgiu, a reação foi imediata, com aplausos, gritos e emoção coletiva. Bira ressalta que aquele momento tocou profundamente o coração de Michael, e que o impacto da gravação ecoou muito além da Bahia, alcançando o mundo inteiro.
O clipe foi gravado em dois cenários emblemáticos: Salvador e a favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, reforçando o diálogo entre diferentes territórios marcados por desigualdade social, mas também por resistência cultural. Até hoje, as coreografias criadas naquele período seguem vivas, e a imagem de Michael Jackson dançando com a camisa branca estampada com o símbolo do Olodum continua sendo reproduzida em apresentações do bloco e em homenagens ao artista.
Entre os momentos mais marcantes da gravação está o abraço espontâneo de Michael Jackson com a fã Solange Xavier dos Santos, que conseguiu se aproximar do cantor apesar do forte esquema de segurança policial. A cena, carregada de emoção e humanidade, foi escolhida pelo diretor Spike Lee para integrar o clipe, tornando-se uma das imagens mais simbólicas da produção.
Outro depoimento emocionante é o de Jeison Wilde, que tinha apenas 11 anos na época. Ele recorda a experiência de dançar ao lado de Michael Jackson como algo inesquecível, descrevendo o cantor como “o maior astro do mundo pop”. Durante as gravações, havia uma orientação rígida para que os músicos e dançarinos não falassem com o artista nem pedissem fotos. Em determinado momento, Spike Lee pediu mais alegria e intensidade nos movimentos. Foi então que Jeison improvisou um passo de dança que chamou a atenção de Michael, que quebrou o protocolo e o puxou para dançar, arrancando aplausos e eternizando a cena.
Passadas quase três décadas, o legado da gravação segue vivo em Salvador. No Pelourinho, o prédio azul onde Michael Jackson cantou permanece preservado, e a sacada utilizada no clipe tornou-se um dos pontos turísticos mais visitados da região. Fãs de todas as partes do mundo fazem questão de pisar no mesmo chão onde o artista esteve. Carlos Alberto dos Santos, vendedor local, relata a emoção constante dos visitantes ao conhecer o local, que se transformou em símbolo desse encontro histórico entre a Bahia e o maior nome da música pop.
Mesmo após 30 anos, a gravação de “They Don’t Care About Us” em Salvador ultrapassa o status de videoclipe e se consolida como um marco cultural e político. Ela representa a união entre música, dança, identidade negra e resistência cultural, conectando a história secular do povo baiano à projeção global de Michael Jackson. As imagens continuam emocionando gerações, levando a Bahia para o mundo e eternizando um momento que permanece gravado na memória da música e da cultura pop mundial.