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Do Sertão para o topo do Brasil: O professor de Alagoas que desbancou os grandes centros e levou a maior nota do CNPq
23 de maio de 2026 / 10:29
Foto: Divlugação

A produção científica de alto nível no Brasil quebrou barreiras geográficas e fincou sua bandeira no semiárido alagoano. O professor Jonhatan Magno Norte da Silva, docente do Campus do Sertão da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em Delmiro Gouveia, alcançou a maior nota nacional entre os pesquisadores contemplados com a Bolsa de Produtividade em Pesquisa na categoria PQ-C, dentro do comitê de Engenharia de Produção e Transportes. O feito inédito, chancelado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), representa o topo do reconhecimento acadêmico no país e projeta a força da interiorização universitária.

Jonhatan Silva é o pesquisador líder do Group of Ergonomics and New Tools (Gent/Ufal), acumulando um portfólio robusto com mais de 80 artigos publicados em revistas científicas internacionais e atuando como revisor de pelo menos 30 periódicos de grande impacto nas áreas de exatas, humanas e biológicas.

“Recebo com muita gratidão e responsabilidade. Representa um importante reconhecimento ao trabalho científico que venho desenvolvendo nos últimos anos, especialmente na interface entre ergonomia, sustentabilidade, psicometria e ciência de dados. É também um resultado que reforça a relevância da pesquisa produzida nas universidades públicas brasileiras e o potencial da ciência desenvolvida no sertão alagoano”, destacou o docente.

Para o diretor do Campus do Sertão, Thiago Trindade, o resultado quebra o preconceito de que a pesquisa de ponta estaria restrita aos grandes centros urbanos. “Isso prova que excelência acadêmica não tem endereço fixo, ela acontece onde há compromisso, competência e apoio institucional. O Campus do Sertão não apenas entrou para a lista, ele está no topo dela”, comemorou.

Ufal aprova 39 bolsas de produtividade em diversas áreas

O desempenho do professor Jonhatan puxou uma onda de resultados positivos para a instituição. No balanço preliminar da Chamada CNPq nº 23/2025, a Ufal garantiu a aprovação de 39 bolsas de produtividade de um total de 73 propostas submetidas à agência federal. A engenharia dos resultados aponta para a concessão de 22 novas bolsas e a manutenção e renovação de outras 17 já existentes no corpo docente.

A distribuição dos pesquisadores contemplados pulverizou-se por eixos multidisciplinares da instituição, abrangendo Ciência da Informação, Agronomia, Aquicultura, Bioquímica, Ciências Ambientais, Ciência da Computação, Educação, Engenharias, Física, Farmácia, Linguística, Matemática, Psicologia, Serviço Social, Química, Nutrição e Zoologia.

O prumo dos critérios de avaliação do CNPq

Para conceder a honraria, os Comitês de Assessoramento do CNPq aplicam uma rigorosa matriz de auditoria de currículos. O sistema de classificação adota a nomenclatura dos níveis A, B e C, onde o nível C representa a porta de entrada, o B a fase de desenvolvimento e o nível A o estágio consolidado da carreira.

A avaliação do prumo técnico considera a produção científica dos últimos cinco anos para o nível C e dos últimos dez anos para os níveis mais elevados, auditando o mérito do projeto de pesquisa, a formação de recursos humanos (orientação de mestres e doutores), a liderança acadêmica e a capacidade de inserção internacional da trajetória do cientista.

Participação feminina na ciência de alto nível ainda enfrenta barreiras

Apesar dos motivos para celebrar, o raio-x estatístico do edital trouxe à tona um debate urgente sobre a disparidade de gênero na pesquisa de ponta. Das 39 bolsas conquistadas pela Ufal, 29 foram para pesquisadores homens e apenas dez para mulheres. No recorte das novas concessões, a assimetria se repete: 17 homens contra cinco mulheres. Com esses números, a bancada feminina representa apenas 25,6% do total de bolsas da instituição, um índice visivelmente abaixo da média nacional do CNPq, onde as mulheres respondem por 37% do bolo global e 42% dos novos ingressos.

Entre as cinco cientistas que romperam essa barreira e conquistaram a bolsa pela primeira vez está a professora Ana Catarina Rezende Leite, do Instituto de Química e Biotecnologia (IQB). Doutora em Biologia Funcional e Molecular e líder do Laboratório de Bioenergética (Labio), ela comanda estudos complexos sobre os mecanismos do estresse oxidativo e da bioenergética mitocondrial aplicada a patologias.

  • Bancada Feminina na Ufal: 25,6% das bolsas totais;
  • Média Nacional de Mulheres no CNPq: 37% global;
  • Novas Bolsistas no Cenário Nacional: 42% de participação feminina.

“Sou muito grata por ser hoje a única mulher na área de Bioquímica PQ na Ufal. Continuar lutando por uma maior equidade deve ser uma bandeira de todas as pessoas que sabem a importância da ciência em nosso país”, reforçou a professora Ana Catarina, apontando que a conquista corrobora o esforço de seu grupo de pesquisa em abraçar a ciência como pilar de desenvolvimento.

Políticas institucionais buscam romper o ‘efeito tesoura’

O diagnóstico das assimetrias locais tem mobilizado a Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da Ufal (Propep). De acordo com a coordenadora de Pesquisa da instituição, Magna Suzana Moreira — que também garantiu a renovação de sua bolsa de produtividade neste ciclo —, a universidade está erguendo os alicerces internos para mudar essa realidade desde a base e combater o chamado “efeito tesoura”, jargão acadêmico que descreve o sumiço progressivo das mulheres à medida que se avança rumo ao topo da pirâmide das carreiras científicas.

A Propep está em fase avançada de elaboração e tramitação da Política de Igualdade, Equidade e Diversidade de Gênero da Ufal. Paralelamente, o município e a comunidade acadêmica contam com ações práticas de estímulo e visibilidade, como o Prêmio Meninas e Mulheres na Ciência. O objetivo central é criar um ambiente institucional seguro e meritocrático que dê condições estruturais para que mais pesquisadoras ingressem, permaneçam e alcancem o topo das avaliações das agências de fomento nacionais.

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