
Ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa, como chatbots capazes de criar textos e manter diálogos, estão integradas à rotina de milhões de pessoas. Entre jovens e adolescentes, o uso dessas tecnologias para tratar questões emocionais e de saúde mental tem suscitado preocupação entre especialistas, que destacam os riscos de dependência e aumento da solidão. Um estudo publicado no final de 2025 pela revista científica BMJ indica que sistemas como ChatGPT, Claude e Gemini têm sido utilizados como um “porto seguro” emocional por um número significativo de jovens. A pesquisa revela que cerca de um terço dos adolescentes usa a IA para interação social, sendo que um em cada dez considera as conversas com esses chatbots mais satisfatórias do que as interações com pessoas reais.
Ainda que o uso possa funcionar como um suporte inicial, especialistas alertam que o problema surge quando a tecnologia substitui as relações humanas. “Esses sistemas não possuem empatia verdadeira, cuidado genuíno ou conexão relacional. Há o risco de o jovem criar dependência emocional e perceber a IA como um ‘amigo'”, afirma o psiquiatra Daniel de Paula Oliva, do Espaço Einstein Bem-estar e Saúde Mental, do Hospital Israelita Albert Einstein.
No Brasil, o contexto é particularmente delicado devido ao limitado acesso a serviços de saúde mental. Uma pesquisa da Cisco, em parceria com a OCDE, mostra que o país é o segundo do mundo em uso de IA generativa, com 51,6% da população declarando utilizar essa tecnologia, ficando atrás apenas da Índia. O levantamento ouviu mais de 14 mil pessoas em 14 países, incluindo mais de mil brasileiros. Para os especialistas, esse elevado índice pode apresentar tanto oportunidades quanto ameaças. A IA pode auxiliar na identificação precoce de sofrimento psíquico, mas pode também intensificar o isolamento social caso substitua o contato humano real.
O artigo do BMJ destaca que, em ambientes monitorados, a IA pode ajudar a reduzir sintomas de ansiedade e depressão. Porém, os autores chamam atenção para o desenvolvimento de “relacionamentos quase-pessoais”, devido à naturalidade da linguagem e à capacidade dos sistemas de responder com aparente empatia, levando as pessoas a humanizarem a tecnologia. Outro aspecto relevante é a inexistência de frustração nas interações com a IA. “Ela oferece paciência ilimitada e raramente confronta o usuário, o que pode prejudicar o desenvolvimento da habilidade de lidar com conflitos e frustrações típicas das relações humanas”, explica Oliva. Essas experiências são essenciais para o amadurecimento emocional e social dos jovens.
Apesar dos potenciais riscos, os especialistas reconhecem que a IA pode ter um papel positivo quando usada como complemento – e não substituto – do atendimento em saúde mental. “Ela pode atuar como uma ponte para o cuidado real, ajudando a identificar sinais de sofrimento e incentivando a busca por apoio profissional e redes sociais”, acrescenta o psiquiatra.
Diante disso, é fundamental fortalecer debates sobre a regulação do uso dessas tecnologias e a expansão de iniciativas presenciais, como grupos comunitários e serviços públicos de saúde mental. Para familiares e profissionais, a recomendação é observar se o uso da IA está promovendo alienação social ou diminuindo habilidades de convivência.
A passagem do uso ocasional ao padrão problemático pode apresentar sinais semelhantes aos de outras dependências comportamentais, como ansiedade quando afastado do chatbot ou da internet, abandono de atividades diárias, dificuldade para enfrentar frustrações, alterações no sono e sentimentos persistentes de isolamento. Em situações assim, é essencial procurar ajuda profissional. A tecnologia pode ser uma aliada, mas a saúde mental dos jovens depende, sobretudo, de relações humanas sólidas e de suporte adequado no ambiente real.