
Olhar para os números recentes da economia da Paraíba provoca uma imediata sensação de otimismo. O estado tem se posicionado na vanguarda do crescimento do Nordeste, ostentando uma projeção de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) na casa dos 4,4% — praticamente o dobro da média nacional. Caminhar pelo comércio das grandes cidades ou observar o vaivém dos centros de distribuição revela um setor varejista pulsante, que acumula impressionantes 26 meses consecutivos de recordes positivos. O paraibano está consumindo, o dinheiro está circulando e as vitrines estão cheias.
Contudo, por trás da euforia dos caixas registradores e dos canteiros de obras acelerados, esconde-se um desequilíbrio silencioso de proporções continentais. A balança comercial do estado enfrenta um déficit recorrente que já ultrapassa a marca de US$ 1,1 bilhão anualmente. A Paraíba vive o paradoxo de uma economia que acelera o passo no consumo, mas cava um abismo profundo na sua dependência externa.
A sofisticação do que vem de fora e o valor do chão local
Essa disparidade revela uma fragilidade estrutural que o brilho do PIB não consegue apagar. O parque industrial paraibano, embora relevante e gerador de empregos, padece de uma forte necessidade de insumos estrangeiros para continuar operando. Para sustentar a construção civil que redefine os horizontes de João Pessoa e Campina Grande, e para abastecer as prateleiras do comércio, o estado precisa importar em massa componentes eletrônicos, maquinários pesados, tecidos e produtos químicos de alto valor agregado.
O grande nó cego da economia local reside no contraste entre o que entra pelos portos e o que sai deles. Enquanto a Paraíba compra tecnologia cara e industrializados complexos, a sua pauta de exportação ainda se apoia majoritariamente em produtos de menor margem de lucro. O estado envia para o mercado internacional commodities e bens de baixo valor agregado, como o açúcar, calçados de borracha e sucos de frutas — com destaque para o suco de abacaxi. Na prática, vende-se o fruto do suor da terra e compra-se, a preço de ouro, a inteligência técnica de fora.
O Modo Nordestino de Produzir: A resistência do tear e do couro
[Xilogravura Afetiva] Há uma força ancestral que move os galpões industriais de Campina Grande e as pequenas confecções do interior. É a herança do tear, o manejo do couro e a lida com a terra que moldaram a identidade trabalhadora do nosso povo. Ver a Paraíba produzir calçados que pisam o mundo inteiro e colher o abacaxi mais doce do país é motivo de um orgulho profundamente legítimo. No entanto, o modo nordestino de produzir não pode ficar eternamente preso ao papel de fornecer apenas a matéria-prima básica. Valorizar a nossa identidade significa também dar o próximo passo: dominar a tecnologia, refinar o processo e garantir que a riqueza do valor agregado permaneça aqui, alimentando o futuro das nossas próprias famílias.
A tempestade global e o reflexo nos projetos locais
Essa forte vulnerabilidade externa ganha contornos de urgência diante das recentes instabilidades no tabuleiro internacional. A combinação de quedas nas bolsas globais, a alta dos juros dos títulos públicos nos Estados Unidos — motivada por pressões inflacionárias — e a persistente guerra comercial entre Washington e Pequim formam uma tempestade perfeita que pode frear o ritmo paraibano.
Os reflexos dessa conjuntura global tocam o chão do estado de duas formas muito claras:
- Encarecimento do Crédito: A alta dos juros internacionais eleva o custo dos financiamentos de longo prazo, criando barreiras econômicas para projetos audaciosos de infraestrutura local, como a inédita Parceria Público-Privada (PPP) de esgotamento sanitário da Cagepa.
- Pressão na Indústria Tradicional: A valorização do dólar encarece diretamente a importação de componentes para os setores têxtil e calçadista de Campina Grande. Com insumos mais caros, as margens de lucro encolhem, ameaçando a manutenção e a abertura de postos de trabalho formal na região.
Comemorar os recordes do varejo e o avanço do PIB é justo e necessário, mas fechar os olhos para um déficit bilionário na balança comercial é um risco fiscal que a Paraíba não pode se dar ao luxo de correr. Para que o crescimento atual se transforme em desenvolvimento sustentável, o estado precisa urgentemente diversificar sua matriz econômica, atrair indústrias de base tecnológica e agregar valor ao que produz. Sem essa transformação estrutural, a Paraíba continuará vulnerável ao humor das potências estrangeiras, gastando sua energia para pagar fornecedores externos em vez de financiar o seu próprio amanhã.
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