
Basta um clique na tela do celular para abrir as portas de um mercado global que cabe no bolso. Capinhas por R$ 10, luminárias decorativas por R$ 15 e peças de roupa por menos de R$ 20 viraram o novo vício de consumo dos brasileiros, revolucionando o comércio e transformando as caixas de encomendas internacionais em presença garantida nas portarias e salas de estar da Paraíba. No entanto, o que se apresenta como um paraíso de economia para o consumidor doméstico está gerando um rastro de alertas preocupantes nos bastidores da economia paraibana, acendendo um debate urgente sobre a sobrevivência da produção local.
A enxurrada de mercadorias vindas principalmente da China — impulsionada por gigantes dos marketplaces digitais — trouxe um nó cego para o setor produtivo. Enquanto o cidadão comum celebra o acesso facilitado a bens que antes pesavam no orçamento, as pequenas e médias empresas do estado enfrentam uma concorrência desleal, travando uma luta inglória contra produtos fabricados com custos operacionais infinitamente menores, muitas vezes subsidiados por governos estrangeiros e beneficiados por brechas tributárias.
O rombo bilionário dos manufaturados e a pressão no comércio local
O sinal de fumaça nacional foi emitido pela Coalizão Indústria, entidade que reúne os principais pilares produtivos do país (como os setores têxtil, de aço, plástico e máquinas). As projeções para 2026 são assustadoras: o déficit da balança comercial de produtos manufaturados deve atingir a marca histórica de US$ 146,4 bilhões, superando o já alarmante saldo negativo de US$ 134 bilhões registrado em 2025. O problema, apontam os industriais, não é o ato de importar em si, mas a entrada predatória de bens estrangeiros em condições de competitividade consideradas desleais.
O impacto desse efeito dominó toca diretamente o chão da Paraíba. Paradoxalmente, o estado vive um momento de forte vitalidade fabril: dados baseados em estudos do Banco do Brasil apontam que o crescimento industrial paraibano deve fechar o ano em 4,4% — mais que o dobro da média nacional. O perigo mora no fato de que essa expansão é liderada justamente pelas áreas mais vulneráveis ao ataque dos preços internacionais:
- O polo de confecções e calçados de Campina Grande e região metropolitana;
- O setor têxtil e de transformação de João Pessoa, Cabedelo e Santa Rita;
- O comércio varejista tradicional, que vê o consumidor preferir a etiqueta barata do aplicativo, abrindo mão da qualidade ou aceitando prazos longos de entrega em nome do preço baixo.
O Modo Nordestino de Produzir: A palavra e o valor da confiança
[Xilogravura Afetiva] Nas feiras livres, nos mercados públicos e nas pequenas mercearias do interior da Paraíba, o comércio sempre foi feito olhando no olho. Antes dos cartões e dos sistemas integrados, a maior riqueza de um negociante era o seu nome e o valor da sua palavra empenhada na caderneta. Ver o pequeno empresário paraibano sufocado por dívidas institucionais dói porque fere essa dignidade histórica de quem gosta de honrar o que assume. O modo nordestino de negociar tem na resiliência a sua maior força: o comerciante é o primeiro a chegar, o último a sair e possui uma capacidade hercúlea de se reinventar no meio da crise para proteger o sustento dos seus e a confiança da sua comunidade.
O grito de sobrevivência e o desafio do “Custo Brasil”
A realidade relatada por líderes de mercado é de um cenário de trincheira. O presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos, Synésio Batista da Costa, resume o panorama para os próximos meses em uma única palavra: “sobrevivência”. O setor siderúrgico faz coro ao desabafo; o Instituto Aço Brasil aponta que as importações predatórias abocanharam um terço de todo o mercado nacional de aço no ano passado.
Diante da asfixia, a indústria cobra do governo federal barreiras de defesa comercial mais severas, como ações antidumping, a redução das taxas de juros e o enfraquecimento do chamado “Custo Brasil” — o emaranhado de impostos altos, burocracia travada, logística cara e energia elétrica inflacionada que encarece o produto nacional antes mesmo de ele sair da fábrica.
Se o ritmo atual persistir, o preço cobrado pelos aplicativos de compras baratas pode ser pago com o fechamento de postos de trabalho formais e o desincentivo a novos investimentos regionais nos distritos industriais paraibanos. Por outro lado, economistas lembram que a concorrência externa força a modernização e segura a inflação, beneficiando a população de baixa renda. O grande desafio institucional da Paraíba e do Brasil será encontrar o ponto de equilíbrio nessa balança: garantir que o cidadão continue comprando bem, sem permitir que as fábricas da nossa terra fechem as portas, transformando o estado em um território puramente dependente do que vem de fora.
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